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domingo, 5 de dezembro de 2010

O Pós-Panóptico chegou...

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Trago hoje para conhecimento de todos os que aqui navegam as ideias de Zygmunt Bauman sobre o Panóptico. Ou seja, sobre as mudanças que o Panóptico tem sofrido nestes tempos de Modernidade Líquida.

Foram transcritas as páginas 16, 17 e 18 da edição brasileira do livro de Bauman, publicado pela Zahar, em 2001.

O trecho é um pouquinho longo para um blog, mas achei que iria valer a pena tê-lo aqui neste espaço. Principalmente porque o autor não é daquele tipo de intelectual que parece não querer que as pessoas "normais" o compreendam.

Vamos lá, e até a próxima Quarta-Feira.

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Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham como arquimetáfora do poder moderno. No Panóptico, os internos estavam presos ao lugar e impedidos de qualquer movimento, confinados entre muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou bancadas. Eles não podiam se mover porque estavam sob vigilância; tinham que se ater aos lugares indicados sempre porque não sabiam, e nem tinham como saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se a vontade.

As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação; dos múltiplos laços de sua subordinação, a "fixação" dos internos ao lugar era o mais seguro e difícil de romper. O domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores — e imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito ao movimento e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em seu exercício do poder. A pirâmide do poder era feita de velocidade, de acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento.

O Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos entre os dois lados da relação de poder. As estratégias dos administradores, mantendo sua própria volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus subordinados, se tornavam uma só. Mas havia tensão entre as duas tarefas. A segunda tarefa punha limites à primeira — prendia os "rotinizadores" ao lugar dentro do qual os objetos da rotinização do tempo estavam confinados. Os rotinizadores não eram verdadeira e inteiramente livres para se mover: a opção "ausente" estava fora de questão em termos práticos.

O Panóptico apresenta também outras desvantagens. É uma estratégia cara: a conquista do espaço e sua manutenção, assim como a manutenção dos internos no espaço vigiado, abarcava ampla gama de tarefas administrativas custosas e complicadas. Havia os edifícios a erigir e manter em bom estado, os vigias profissionais a contratar e remunerar, a sobrevivência e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e cultivada.

Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto, responsabilizar-se pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de um interesse pessoal consciente — e a responsabilidade, outra vez, significa estar preso ao lugar. Ela requer presença, e engajamento, pelo menos como uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.

O que leva tantos a falar do "fim da história", da pós-modernidade, da "segunda modernidade" e da "sobremodernidade", ou a articular a intuição de uma mudança radical no arranjo do convívio humano e nas condições sociais sob as quais a política-vida é hoje levada, é o fato de que o longo esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu "limite natural". O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico — e assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais se reduziu à instantaneidade.


Em termos práticos, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo desacelerado, pela resistência do espaço (o advento do telefone celular serve bem como "golpe de misericórdia" simbólico na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais necessário para que uma ordem seja dada e cumprida.

Não importa mais onde está quem dá a ordem — a diferença entre "próximo" e "distante", ou entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de desaparecer). Isso dá aos detentores do poder uma oportunidade verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos irritantes e atrasados da técnica de poder do Panóptico.

O que quer que a história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez acima de tudo, pós-Panóptica. O que importava no Panóptico era que os encarregados "estivessem lá", próximos, na torre de controle. O que importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento — para a pura inacessibilidade.

O fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisionados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da ordem, e com a responsabilidade pelas conseqüências de tudo, bem como com a necessidade de arcar com os custos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Invasões, Invasões...

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Esses últimos dias tenho lido o livro Modernidade Líquida (2000) de Zygmunt Bauman. O autor, sociólogo polonês, faz ali uma grande viagem, tão pessimista quanto Giles Deleuze foi no começo dos anos 90, em torno de como nos encontramos, nós humanos, numa condição em que parece que as correntezas estão mais fortes do que nunca.

O que chamamos de correntezas nada mais são do que padrões sociais, cada vez mais homogêneos, e com poucas possibilidades de fuga do emaranhado formado. Para ele, confirmando os desejos de idealistas do Sec. XIX, os sólidos se desmancharam no ar, mas, para a infelicidade de muitos, sedimentou-se uma nova ordem, líquida, mas paradoxalmente, tão ou mais rígida que as ordens anteriores.

Podemos perceber o quanto Bauman considera rígidas as novas "leis" sociais desde o começo do livro. Didaticamente ele afirma que "se o tempo das revoluções sistêmicas passou, é porque não há edifícios que alojem as mesas de controle do sistema, que poderiam ser atacados e capturados pelos revolucionários".
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Assim dentre os sólidos que se desejariam derreter neste momento não estariam incluídos o cada vez maior individualismo, a uniformização cultural, e o endeusamento cada vez maior da mercadoria, somente como exemplos.

Caco Barcelos em seu programa semanal da Rede Globo na última Terça-Feira (30 de Novembro) me fez repensar sobre aquelas ideias de Bauman. Na reportagem os "novos" jornalistas do programa Profissão Repórter da Globo fazem uma inserção completa sobre os dias finais da ocupação de um prédio, antigo hotel, no centro da cidade de São Paulo, na bem conhecida, de muitos brasileiros, Avenida Ipiranga, graças a música de Caetano Veloso.

É possível se ver dentro da reportagem elementos que tanto reforçam quanto podem refutar as teorias do sociólogo polonês. A própria reportagem, por exemplo, pode representar uma brecha de resistência a homogeinização quase absurda que impera no jornalismo aqui no Brasil (vide as reportagens do último final de semana sobre a "Guerra contra o Tráfico" no Rio de Janeiro).

Ver o corre-corre dos repórteres junto com membros da comunidade criada com a ocupação, desde a madrugada, quando se procurava comida nas feiras, passando pelo périplo de adultos e crianças, uns em direção às escolas e outros às filas de emprego, e chegando ao final, observando o rosto entristecido do repórter no momento da invasão policial no prédio (chamada eufemisticamente de desocupação, ou reintegração de posse), me fizeram ter esperança em um jornalismo positivo (não lembrei de outro termo para qualificar um jornalismo desse tipo).

Espero que o trecho da reportagem (ela completa se encontra no portal da Globo.com) que coloquei ai em cima na postagem de hoje faça com que aqueles que navegam por este blog também reflitam sobre o que se deseja para o mundo e para as pessoas que nele residem. E quem sabe os versos de Caetano também ajudem nessa reflexão:

"Alguma coisa acontece
No meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga
E a Avenida São João...".