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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Espionagem baratinha

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Imagine ai. Você chama um colega de trabalho para uma festa. O cara está deprimido. Você enche ele de cachaça. Depois começa uma conversa que faz com que ele se declare homossexual. E você teve a oportunidade de gravar tudo com o relógio/câmera que você comprou baratinho numa dessas lojas virtuais na Internet. Agora você vai poder sacanear o colega em seu local de trabalho. Maravilha, né ? Olha o reloginho ai embaixo na foto.
Imagine mais um pouquinho. Você está indo conversar com o seu chefe. Aquele que você odeia. Aquele que lhe humilha. Que lhe ofende todos os dias. E que lhe paga uma migalha. Vai participar de uma reunião com ele e com outros diretores da fábrica. E vai ter a chance de vê-lo abordando os problemas que a fábrica poderia ter com o Ministério Público se alguns pormenores da produção fossem descobertos. Você resolve levar uma canetinha de bolso, que grava vídeo e áudio. Bacaninha. Vai ser sua vingança. A canetinha é barata e não se diferencia em nada de uma comum. Olha a foto de uma ai embaixo.


Vamos continuar imaginando mais um pouquinho. Agora você todo desconfiado de sua esposa, ou de seu marido, resolve saber com certeza se ela vai mesmo ao dentista, toda quarta-feira a tarde. Vai contratar um detetive ? Coisa antiga. Você compra um mini-rastreador GPS. Coloca dentro do carro, sem que ela/ele desconfie. Ai, é só fazer as conexões necessárias e seu celular ou seu computador pessoal se tornarão sua ferramenta diária de controle de sua esposa /marido. Olha como o negocinho funciona na figura abaixo.


Ummm... mundinho cheio de possibilidades, não é ? E então ? Era esse mundo "utópico" que você imaginava quando era criança, assistindo a algum daqueles filmes de ficção científica com histórias de Isaac Asimov, ou de Ray Bradbury ?

Vai pensando ai. E até domingo que vem.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"O Olhar Virou Comércio"

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Em entrevista a jornalista Claudia Nina, publicada no Jornal do Brasil em 08 de Junho de 2002,
 o psiquiátra Antônio Quinet tráz as relações entre vigilância e exibicionismo,
como me referi no domingo passado.

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"A sociedade que produz Kleber Bambam e outras celebridades-relâmpagos é a mesma que substituiu o lema ‘penso, logo existo’ por um outro ditado, mais apropriado à lógica do espetáculo: ‘sou visto, logo existo’".

Essa mesma sociedade é definida pelo psicanalista Antônio Quinet como ‘escópica’, termo que desenvolve em Um olhar a mais: ver e ser visto em psicanálise (Jorge Zahar Editor, 300 páginas, sem preço definido). No livro, Quinet, doutor em Filosofia pela Universidade de Paris, explica as diversas formas do imperativo do olhar: de um lado, a fabricação de celebridades, querendo aparecer a qualquer preço; de outro, a insegurança das grandes cidades que gera a exigência da supervigilância com câmeras e filmadoras escondidas por todos os lados.

Antônio Quinet analisa o olhar desde a Antigüidade grega até os dias de hoje, abordando temas como os reality-shows e ainda a timidez, o pudor, a inveja, o ciúme, o mau-olhado, a espionagem, entre outros. O psicanalista falou ao JB sobre o trabalho e o sucesso de programas do tipo Big Brother em todo o mundo.

- Por que a superimportância do olhar nos dias de hoje?

- A sociedade contemporânea é dominada pelo olhar. Ele é onividente sob variadas formas: desde a proliferação dos programas televisivos de voyeurismo e exibicionismo explícitos até a generalização da vigilância que multiplica as câmeras encontradas em nossos passos todos os dias. Vivemos, hoje, numa sociedade escópica que conjuga o show business e o olho que vigia e pune, materializando o espetáculo com a disciplina e o controle. Essa sociedade comandada pelo capitalismo faz comércio do gozo do ver e do ser visto, e transforma em moeda desde o prazer da exibição até a vigilância do poder.

- Em uma pesquisa sobre o olhar, é evidente que a questão dos reality-shows não pode ficar de fora. Como você, do ponto de vista da psicanálise, enxerga o sucesso desse tipo de programa em todo o mundo?

- É o que abordo no último capítulo do livro. Há programas de televisão que tendem, sem pudor, a fundir a vida com o espetáculo. Os programas do tipo reality-show transformam os participantes em celebridades que pagam o preço de se verem reduzidas a objetos de torcida e aposta nesse ‘antropódromo televisivo’. Tudo isso de acordo com um script em que se fabricam as reações (em que até uma psicose pode ser desencadeada). Nessa jogada, em que os jogadores em casa identificados com os jogadores da casa comungam da mesma paixão pela fama, não se sabe mais quem é o sujeito (do jogo) e quem é o objeto (da aposta). O importante é ver tudo e ser visto o tempo todo.

- À luz da psicanálise, o que leva um indivíduo a querer aparecer em programas do tipo Big Brother?

- É o olhar, como objeto pulsional, que causa o gozo do espetáculo e o imperativo superegóico de se mostrar e de se exibir: tornar-se visível, virar uma celebridade. Em todos os aparelhos (ideológicos e tecnológicos) é o olhar que se manifesta sob a forma de um mandamento de gozo: ‘Mostre-se!’ Todos aspiram à celebridade como condição de ser alguém. Assim, nos arrumamos e nos enfeitamos para entrar em cena como figurantes ou protagonistas do filme-vida, para agradar o público. A sociedade escópica apropria-se desse desejo para transformar o exibicionismo em imperativo de publicidade, ordenando ao sujeito fazer de tudo para roubar a cena. Reatualiza-se a ilusão de que o sol brilha para todos ao acenar com a possibilidade de que qualquer um pode ser uma celebridade, bastando ser visto pelo outro para existir. Instaura-se um novo cogito: sou visto, logo existo.

- Em que medida isso se torna prejudicial à sociedade que, cada vez mais, como você escreve, passa a fazer olhos vazados à pobreza, que ninguém quer ver, e ninguém quer que seja vista?

- Paralelamente à cegueira em relação à pobreza e à miséria, há outro aspecto da sociedade escópica. Se, por um lado, ela impõe uma existência vinculada não apenas à visibilidade, mas à celebridade, por outro ela amplia cada vez mais a vigilância e o controle sobre cada indivíduo. Não é mais possível sair de casa sem se deparar com os dizeres : ‘Sorria, você está sendo filmado’, verdade ou mentira pouco importa, pois a própria frase faz existir um olhar invisível pousado no sujeito. Entretanto, não precisamos de um dispositivo concreto para nos sentirmos olhados - o neurótico está sempre se sentindo olhado e o paranóico, fabricando um delírio de observação. A instância desse olhar atribuído ao outro é chamada por Freud de supereu, que vigia e pune o sujeito. Olhar ‘sobre-mim’. A sociedade escópica, ao utilizar essa estrutura subjetiva, multiplicando seus dispositivos de vigilância eletrônica (câmeras onividentes), transforma a nós todos em objetos vistos e controláveis. A transparência vira um ideal. O pobre só é visto nessa sociedade para ser vigiado, pois é considerado potencialmente um criminoso.

domingo, 4 de abril de 2010

1984 só chegou 25 anos depois...

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O título desta postagem foi traduzido de um vídeo encontrado na Internet.

Aproveitei a idéia e fiz uma brincadeira audiovisual. Uma bricolagem de pequenos trechos de vídeos, disponíveis no YouTube.

Desculpem se me apropriei "indevidamente" do material. Mas acho que essa coisa de direitos autorais é bem discutível. Propriedade intelectual é algo discutível, principalmente dentro da Web.

Fiz a "coisa" com o Windows Movie Maker, sem qualquer precaução estética ou de cunho técnico.

Dentre os objetivos implícitos da exibição deste vídeo aqui neste blog pode estar mesmo o que a gente vem expondo aqui desde o ano passado: o exibicionismo... mas quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Affff... :-)

Brincadeiras a parte o produto que ora compartilho com aqueles que por aqui passam não deixa de ser uma crítica ao excesso de vigilância e tentativa de controle a que estamos sendo submetidos durante boa parte de nossas vidas.

Ai vai o resultado:.

 
Obs.: A música de fundo é do Eurythmics. Greetings from the Dead Man. A música fez parte da trilha sonora do filme 1984.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Na Onda do Big Brother

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Parece que o Big Brother está mesmo na moda. Ontem à noite terminamos de ver mais uma temporada do reality show mais famoso daqueles que colocam gente dentro de um local fechado, dezenas de câmeras e microfones, e haja vigilância, junto com uma determinada mistura de exibicionismo e voyeurismo.

Pena que nem todo mundo saiba de onde vem o termo Big Brother.

Nas postagens anteriores já falei aqui do autor do livro 1984, George Orwell. É dele a idéia de um Big Brother (Grande Irmão) que se encontra 24 horas por dia de olho em cada um dos habitantes da Inglaterra (no livro, denominada Oceania, junto com os Estados Unidos).

Foi com satisfação que vi na Internet e nas bancas as revistas Filosofia e Aventuras na História abordando justamente a obra de Orwell.

No artigo (capa da primeira revista) “Como Eles nos Controlam ?”, o Mestre em Filosofia Renato Bittencourt faz uma análise das obras de Orwell (1984) e de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo). A partir das teorias de Michel Foucault acerca da Sociedade Disciplinar ele percebe como em ambos os livros os autores conseguem sintetizar a idéia de que “a aspiração utópica pela estabilidade social corre o risco de se tornar uma distopia”.

Bittencourt também percebe como, por exemplo, duas sociedades com propostas diferenciadas com relação ao sexo têm no final das contas os mesmos objetivos com relação ao controle sobre os indivíduos. O sexo em 1984 é censurado, inibido, castrado:

O projeto do Partido era eliminar todo prazer no ato sexual. A pulsão sexual era perigosa para o Partido, que a utilizava em interesse próprio. Tal dispositivo é um grande mecanismo para a ampliação do grau de tensão psíquica da massa, que, impedida de gozar e satisfazer os seus desejos, reprime os seus instintos e se aliena das suas capacidades transformadoras, tornando-se infeliz e submissa diante da autoridade de uma ideologia política vazia, que usa palavras de ordem e da manipulação de informações para concretizar o seu poder totalitário.
Enquanto isso, na sociedade criada por Huxley as práticas sexuais são incentivadas pelo Estado. A liberalidade sexual neste caso ao invés de representar uma situação positiva para os indivíduos se torna mesmo uma armadilha. Junto com uma droga (também liberada pelo Estado) chamada Soma, a “liberdade” sexual torna-se uma ferramenta de alienação e controle da população.

Já na revista Aventuras na História de Abril de 2010 (já nas bancas) encontramos também uma outra análise do livro de Orwell no artigo "O Grande Irmão está te Vigiando", escrito por Álvaro Opperman.

Neste artigo o autor faz um pequeno resumo da história do livro 1984, além de uma biografia reduzida de Orwell.

Ao final do artigo o autor faz uma ligação entre os BIG-BROTHERS de Orwell e o de John de Mol (criador da idéia do famoso reality show). A relação entre autoritarismo e voyeurismo é debatida. John de Mol tenta explicar que “na obra de Orwell é o governo que observa tudo através das câmeras – ele fala de autoritarismo e não de voyeurismo, como é o nosso caso”. Contradizendo esta opinião, Opperman cita o historiador Johann Huizinga para quem “uma das chaves para o sucesso dos regimes autoritários é estimular a bisbilhotice alheia”.

Isso nos faz lembrar das nossas conhecidíssimas ditaduras: Cuba e China, apenas como exemplo, quando até hoje uns deduram aos outros, e as prisões ainda ocorrem sem qualquer direito de defesa. Cuba até bem pouco tempo possuía um dos maiores e mais “brilhantes” esquemas de deduragem, os CDR (Centro de Defesa da Revolução) onde desde crianças os indivíduos eram treinados a identificar indícios de contestação ao regime, onde quer que fosse, nas suas escolas, e mesmo dentro de suas próprias casas.

Da mesma forma que Cuba levava seus “subversivos” aos paredões, nesses tempos de reality shows somos nós mesmos que temos o poder de levar aqueles que não nos agradam aos paredões midiáticos, conseguindo premiar tanto bastardos inglórios, quanto patricinhas legalmente loiras.

Volto a postar aqui novamente no Domingo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Vigilância e Voyeurismo

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Na postagem da Quarta-Feira passada (02 de Dezembro) falou-se um pouco sobre subjetividades envolvidas quando pesquisamos o tema Vigilância.

Entre essas subjetividades encontradas pode-se citar a questão que se refere ao uso de novas tecnologias (celular, por exemplo) por homens que filmam mulheres em trens, metrôs, ônibus, e até mesmo em casas de show, aproveitando-se do estado etílico de suas "vítimas", para uso prazeiroso do resultado das filmagens. Um novo estilo de voyeurismo.

Vejam este exemplo demonstrado em matéria jornalística da BandNews de 31 de Março de 2009:


Ao final da matéria uma advogada ouvida pelo repórter sugere, paradoxalmente, que a melhor forma de reprimir a vigilância "não admitida" de voyeuristas sobre suas "vítimas" seria o uso de câmeras dentro dos locais onde ocorrem as filmagens.

Ou seja, a vigilância "legal" do Estado como forma de inibir a vigilância "ilegal" do indivíduo voyeur.