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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Homem-Massa de Cada Dia...

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Não são poucos os filósofos que se agarram a ideia de que o advento de um tal Homem-Massa trouxe, paralelamente, a perspectiva de uma decadência cultural, justamente pela construção de uma “ditadura da massificação”.

Com boas exceções. Walter Benjamin afirmava ser um instrumento democrático a possibilidade de se copiar as imagens das obras de artes que antes da fotografia, por exemplo, só eram vistas em museus europeus, por classes privilegiadas.

Ao contrário, Ortega y Gasset, por exemplo, que criou o conceito do Homem-Massa “fornece um importante aparato intelectual para compreendermos de que maneira vivemos sob a égide moralista do nivelamento humano, e de que forma nossa criação cultural se submeteu a tais parâmetros normativos motivando, assim, nada mais do que o empobrecimento existencial e a legitimação do grotesco”.

Esta visão acima é do autor do artigo O Advento do Homem-Massa, Renato Nunes Bittencourt, na Revista Filosofia, Nº 52, da Editora Escala, analisando as ideias do filósofo espanhol, José Ortega y Gasset.

O que me vem logo a cabeça num debate deste tema da cultura é a Carla Perez dançando na boquinha da garrafa, e ao fundo a música “É o Tchan” sendo tocada. Nada mais “grotesco” para iluministas, cheios de razão, que deploram o que não é “belo” e “sublime”, ou seja, o que “dilui todo destaque pessoal, todo brilho singular”.

Com análises parecidas Theodor Adorno critica a Indústria Cultural que seria construída a partir do conceito de cultura como simples mercadoria. E como mercadoria, dentro do âmbito do capitalismo, não seria priorizado “o florescimento autêntico da vida cultural”.

Tenho uma certa simpatia por ambos os autores. Principalmente quando marcam suas posições contra um modelo de construção cultural que manipula ou coage as pessoas no intuito de simplesmente lucrar e continuar explorando aquelas mesmas pessoas que se tornam consumidores, deixando suas individualidades de lado.

Mas em determinados pontos de suas teorias, eles parecem ter, porém, um certo preconceito com o que podemos chamar de cultura popular. Talvez uma leve saudade do tempo em que ainda se considerava cultura e arte como sinônimos de eruditismo.

Infelizmente, um certo grau daquela arrogância iluminista está instalada nas universidades e faculdades do país. Muita gente ainda acredita com unhas e dentes na superioridade daqueles que têm o diploma de nível universitário. E acreditam nisso com uma naturalidade descarada.

E assim, se aproximam do velho sonho de Platão de ver nos governos apenas os sábios e filósofos. E, então a "gentalha" estaria sob controle total.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ciência e Novas Tecnologias

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Fonte: http://openvizor.com/files/images/surveying-surveillance.preview.jpg

As questões atuais acerca da Vigilância e do Controle exercido através dela está relacionado às questões das novas tecnologias. Alguns, da mesma forma que os ludistas nos primórdios da industrialização na Inglaterra, acusam estas novas tecnologias como o elemento fundamental (inventado pelas classes dominantes) para o controle das massas.

As críticas às sempre complexas "novas tecnologias" não são atuais. O debate proposto por Walter Benjamin sobre a questão das cópias das obras de arte, no começo do Sec. XX, já dava um tom crítico às mídias que surgiam naquele momento, e que pareciam até prever o que viria mais tarde.

Não foi só Benjamim a tratar desse assunto.

Segundo o educador B.F. Skinner, o controle (sem as rédeas da sociedade democrática) gerado pelo uso de tecnologias da educação (e manipulação) não seria apenas intrigante, mas assustador. Assim ele afirma no livro Sobre o Behaviorismo:
Órgãos ou instituições organizados, tais como governos, religiões e sistemas econômicos e, em menor grau, educadores e psicoterapeutas, exercem um controle poderoso e muitas vezes molesto. Tal controle é exercido de maneira que reforça de forma muito eficaz aqueles que o exercem e, infelizmente, via de regra significa maneiras que são ou imediatamente adversativas para aqueles que sejam controlados ou os exploram a longo prazo.
Para ele, essas tecnologias (com seus primeiros passos dados em finais do século XIX) seriam utilizadas de uma maneira ou de outra, como o foram, por nazistas alemães e stalinistas soviéticos, para usufruto de grupos que estivessem no poder . O recomendável, nesse sentido seria estudá-las, aprimorá-las e utilizá-las com parcimônia.

É a ciência estabelecendo uma crítica a ela própria. E à tecnologia que a ronda.

Já em fins do Séc. XIX, o anarquista russo Mikhail Bakunin sugeria, no livro Deus e Estado, que a ciência, mesmo se definida como neutra e racional, estaria nas mãos de poucos e a serviço da manutenção da ignorância para a maioria da população.

Bakunin afirma em um dos seus textos reunidos no livro:
O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo.
Nesta mesma direção crítica surge o livro Vigiar e Punir, do filósofo Michel Foucault (mostrado em postagem anterior). Ali, Foucault vai mostrando, capítulo a capítulo, como vão se construindo no decorrer dos séculos as técnicas de disciplinamento e controle social.
O exercício da disciplina supõe um dispositivo que obrigue pelo jogo do olhar; um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzam a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre quem se aplicam.
A procura de um instrumento perfeito para perceber todos os movimentos faz lembrar o Olho de Sauron*. Mitos a parte, é uma ferramenta destas que aqueles que se encontram no poder devem procurar.

A teletela orwelliana seria um desses aparelhos: O panóptico na forma eletrônica. Análogas a ela, em nossa sociedade, começo do Séc. XXI, poderiam ser, por exemplo, as câmeras escondidas nas esquinas das ruas, nas entradas de supermercados, nas garagens dos subsolos de grandes edifícios empresariais, ou nos elevadores de edifícios residenciais.

Domingo serão mostrados alguns exemplos de como a vigilância se torna atrativa como elemento que traz segurança a partir do fenômeno da violência dentro das cidades.

* O Olho de Sauron, que tudo vê e tudo sabe, faz parte da mitologia criada por J.R.R. Tolkien, na sua obra O Senhor dos Anéis.