O século XX se encerrou afirmando como utopia uma necessária democracia agenciada pelas forças liberais. Ela deve servir a todos como forma de vida política igualitária capaz de contemplar as diferenças. Trata-se de uma democracia representativa com base em direitos civis, políticos e sociais que espera a participação de todos e se propõe garantidora de direitos a serem contemplados com base na inspiração multiculturalista. Capitalismo com democracia passou a ser o duplo indissociável que encerrou o século anunciando o retilíneo caminho a ser seguido pela sociedade de controle.
Edson Passetti no livro Anarquismos e Sociedade de Controle (Cortez Editora)
Para quem não conhece, os versos acima são de uma música tocada lá pelos anos de 1995 e 1996, quando ainda se podia chamar favela de favela. Hoje o nome dado ao mesmo local é Comunidade. Mas a violência e a corrupção policial, por exemplo, continuam andando por ali, da mesma forma que há 15 anos atrás.
O controle estatal, segundo George Orwell, em seu 1984, era também baseado na confusão de ideias difundidas dentro da sociedade. Favela, comunidade, violência, paz, segurança, felicidade. Paz é Guerra. Ignorância é Força. Liberdade é Escravidão. Eufemismos e ambiguidades. A sociedade de controle funciona nestas bases.
Encontrei a notícia que segue no dia 15 de Outubro, no site Vitrine Digital:
Os prefeitos de Pelotas, Rio Grande, Cruz Alta, Taquara e Venâncio Aires estiveram, nesta sexta-feira, em Brasília para assinar convênios com o Ministério da Justiça. O governo vai repassar recursos para que cada município implemente um sistema de video-monitoramento, a fim de reforçar a vigilância em pontos considerados mais perigosos. O objetivo é prevenir a violência e a criminalidade.
Recentemente, os cinco municípios criaram o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM) – órgão reunindo representantes da prefeitura, Judiciário local, Ministério Público, Polícia Militar e sociedade civil (como sindicatos e entidades de classe). Os membros do gabinete analisam estatísticas sobre a segurança pública no município e sugerem medidas para que os problemas sejam resolvidos.
Vigilância e controle social em nome de mais segurança e felicidade ?
Para entendermos um pouco mais acerca do que vem a ser a Sociedade de Controle trouxe hoje aqui um novo trecho da conversa que tive com Acácio Augusto e Edson Passetti. Vejam no vídeo que segue.
Nele o professor da PUC-SP, Edson Passetti, que escreveu o livro Anarquismos e Controle Social, fala de como funciona o controle dentro da sociedade atual.
O filósofo Gilles Deleuze em certo ponto da década de 90 disse o seguinte:
"Diante das próximas formas de controle incessante em meio aberto, é possível que os mais rígidos sistemas de clausura nos pareçam pertencer a um passado delicioso e agradável".
Aproveitamos os conhecimentos de Acácio Augusto sobre aquele autor para questioná-lo sobre como ele via a questão da Sociedade de Controle.
Acácio é autor do livro Anarquismos & Educação, junto com Edson Passetti. Também escreveu o artigo Para além da prisão-prédio: as periferias como campos de concentração a céu aberto, na revista online Observatório das Metrópolis.
Seria uma espécie de pessimismo nas análises de Deleuze sobre a Sociedade do Controle, nos anos 90, que hoje vemos fluindo como a realidade das favelas cariocas, ou na periferia de Salvador, ou qualquer outra grande cidade ?
As modificações urbanísticas, as políticas pacificadoras (com mais policiamento e mais vigilância) naquelas grandes cidades são na realidade apenas parte de uma complexa construção e manutenção das sociedades de controle a que Deleuze se referia ?
Questionamos e ele nos respondeu. Veja o vídeo que segue.
No próximo Domingo continuo a apresentação da conversa que tive com Edson Passetti e Acácio, em seu apartamento no bairro da República em São Paulo. O encontro aconteceu no dia 17 de Outubro, no final da tarde de um outro Domingo.
Na postagem anterior falamos de Edson Passetti com o qual marcamos uma entrevista para outubro próximo.
Passetti é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, Professor Assistente-Doutor do Departamento de Política da PUC-SP e Professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.
Na sociedade de controle o que poderia parecer diferente é semelhante, o avesso é cópia, a contundência é a conformidade na formalização. Assim, transitam trabalhadores eletrônicos de software e desempregados atendidos pelos efeitos da riqueza acumulada em serviços ou filantropias; faz-se aqui uma imitação do que se viu ali; a proliferação da contundência fashion de roupas, músicas, artes e estilos conforma-se ao elogio a uma existência múltipla, transitiva, efêmera que se torna incapaz de romper a programática, de irromper inventiva. Há múltiplas possibilidades de contestar para obter acesso à ordem. Trafega-se da contundência radical ao conformismo, mais de uma vez, por existência camaleônica. As cidades comportam seus centros descentralizados de produtividade, seus campos de confinamento e dormitórios, seus excessos populacionais, criminalidades em ascensão denunciadas pelas estatísticas sobre crescimento de violências e busca de qualidade de vida. As opções estão marcadas, para viver, trabalhar e viajar. Habitam, segundo os recursos materiais, condomínios fora das cidades (uma mesma periferia que aqui recebe um novo nome, que aparta e submete); pretendem acabar com epidemias originadas da insalubridade e que atravessam os cidadãos abarcando programas de saneamento em favelas, contando com a colaboração dos favelados — uma das formas de integrar o que aparta e submete.
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Resistir é um verbo que na sociedade de controle designa forças retrógradas, como as religiosas fundamentalistas, os terroristas do Oriente e Ocidente ou as políticas radicais. Tudo o que escapa da instituição da democracia representativa e midiática é alardeado como perigoso e autoritário, não como no passado, identificando e expondo razões adversárias, contudo agora desprezando, como se fossem inevitáveis entraves, mas incapazes de colocar a democracia em risco. Por certo, a democracia não é mais somente representativa. O recrutamento das candidaturas e do eleitorado também passa definitivamente pelos fluxos eletrônicos, incluindo o toque na própria urna para votar ou o sufrágio por meio do fluxo eletrônico, sem que o cidadão precise deslocar-se de sua residência, mais uma comodidade. No parlamento, na Internet ou na televisão interagem segmentos estratificados da população, políticos, âncoras jornalistas, comandantes de auditórios, regentes de programas temáticos, grupos em situações de risco, artificialmente criados visando fortalecer a estima, a força e a capacidade diplomática do indivíduo em programas diários ou semanais de televisão, enfocando liderança, sistema de privilégios e prêmio em dinheiro. Em todos eles exige-se a opinião do telespectador, sua participação. Ele que espia, se possível, diuturnamente a vida dos outros, no laboratório dos programas de TV e pelas notícias em cima do acontecimento. Internet e televisão passam a ser, neste caso, também locais de produção da verdade. O telespectador e o navegador estão sendo educados pela telerrealidade, alertou George Balandier. A democracia dos meios de comunicação, como também localizou Carlo Freccero, acaba funcionando como totalitarismo; não há respiração sequer para a reflexão, apenas o convite para participar e se filiar a uma corrente de opiniões.