Mostrando postagens com marcador Panóptico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Panóptico. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vigilância sobre o Consumidor

______________________________


O tema Consumismo é bem familiar a autores como Zygmunt Bauman (já apresentado aqui neste blog) e Gilles Lipovetsky (que será apresentado em breve).

É impossível se referir a tal tema sem citá-los.

Mas a Revista Surveillance & Society (online) fez um trabalho excelente ao combinar o tema consumismo ao da vigilância. A publicidade e o marketing não são, há muito tempo, coisa de criança. Essas duas "ciências" nasceram no interior do capitalismo. Da necessidade de fazer com que os indivíduos consumissem: Produtos ou ideias.

A Revista Surveillance & Society publicada semana passada tem a intenção de informar como esse fenômeno se processa atualmente. Com todo aparato tecnológico disponível para os marqueteiros e publicitários.

Trago aqui no post de hoje um trecho traduzido do Editorial da Revista: Marketing e o Crescimento da Vigilância sobre o Consumidor.

No próximo post (após férias bem merecidas de 15 dias) trarei mais trechos daquele editorial.

*******
Ao longo dos anos, análises de vigilância e teorias sobre prática de marketing abordaram a vigilância comercial e corporativa de consumidores em uma variedade de formas. Em um dos exemplares iniciais para detalhar a vigilância de consumidores, Oscar Gandy confiou no uso do Panóptico de Foucault para descrever práticas corporativas. O texto de Gandy, The Panotic Sort, articula-se em mecanismos que agem como “um tipo de triagem cibernética de alta tecnologia através da qual indivíduos e grupos de pessoas estão sendo classificados de acordo com seu presumido valor econômico ou político” (Gandy 1993, 1-2). Os dados dos consumidores são reunidos e analisados de maneiras que servem para ditar as ofertas corporativas para várias categorias e segmentações de clientela. Essa classificação panóptica explora dados comportamentais passados para estreitar e limitar seletivamente opções apresentadas para transações futuras, tudo isso baseado na identificação, classificação e avaliações de consumidores atuais e potenciais. Esse marketing racionalizado classifica alvos econômicos de alta qualidade e descarta outros na sua trilha discriminatória, existindo, argumenta Gandy, como um sistema de controle anti-democrático.

Essas considerações são depois expandidas em um trabalho posterior no qual ele indica que parte do problema é que a ilusão da escolha é mantida em um pano de fundo de uma faixa de opções que se estreita continuamente (1996). Gandy mostra como a relação entre compradores e vendedores tem se tornado uma transação impessoal controlada pela inteligência cibernética. Ela usa uma coleção de dados pessoais cada vez mais automatizada para presumidamente permitir uma forma de marketing personalizado (ibid.). Em um trabalho posterior de co-autoria com Anthony Danna, a perspectiva de Gandy é aplicada a um elemento chave na Gestão da Relação com o Consumidor, percebendo a exploração de dados como um processo de classificação social. Danna e Gandy (2002) sugerem que as conseqüências sociais de práticas de exploração de dados são consistentemente ignoradas e que essas práticas podem excluir classes de consumidores da total participação no mercado (ver também Zwick e Dholakia 2004a). Eles apelam para que as corporações examinem o custo potencial que essas técnicas discriminatórias terão sobre determinados grupos sociais e sugerem que as corporações precisam considerar mais do que os lucros ao realizarem o marketing com base em práticas de exploração de dados.
_______

Gandy, O. H. 1993. The Panoptic Sort: A Political Economy of Personal Information. Boulder, CO: Westview.
——. 1996. Coming to Terms with the Panoptic Sort. In D. Lyon and E. Zureik (eds) Computers, Surveillance, and Privacy. Minneapolis: University of Minnesota Press.
——. 2009. Coming to Terms with Chance: Engaging Rational Discrimination and Cumulative Disadvantage. Farnham, Surrey:Ashgate.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Saiu na SUPER...

______________________________


A Revista Superinteressante na sua edição verde, de Dezembro, vem com duas informações sobre vigilância que nos interessam de verdade.
.
Uma delas é aquela em que se fala de um Site que "permite que qualquer pessoa vigie câmeras de segurança pela Internet - e ganhe até R$ 2.600 se denunciar um crime".

Abaixo transcrevo um trecho da notícia:
Toda grande loja ou supermercado está cheio de câmeras de vigilância. Só que os seguranças, por cansaço ou distração, nem sempre conseguem detectar os furtos. Então que tal transformar essa tarefa numa espécie de gincana virtual? É a proposta do Internet Eyes (interneteyes.co.uk), um site que acaba de ser aberto na Inglaterra e permite que qualquer pessoa vigie as câmeras de diversas lojas e empresas. O usuário precisa se cadastrar (podem participar pessoas de todos os países da União Europeia) e pagar uma taxa mensal equivalente a R$ 5. Feito isso, basta se logar no site, que exibe as imagens de 4 câmeras de cada vez. Os nomes e endereços das lojas não são identificados. A pessoa fica vigiando as câmeras pelo tempo que quiser. Se perceber algo suspeito,  clica num botão - e um alerta imediato é enviado, via SMS, para o dono do estabelecimento comercial. A cada mês, o usuário que tiver detectado mais furtos ganha R$ 2.600. Já quem passar trotes é expulso do site.
Uma das evidências que normalmente se busca para "provar" a existência de uma Sociedade de Controle  entre nós é, justamente, um Poder em Rede. Diferentemente da Sociedade Disciplinar (Sec.18 ao Sec. 20) onde o vigiado seria individualizado, preso dentro de uma cela, por exemplo, no Poder em Rede, os vigiados estariam dispersos espacialmente, tal como nós conectados de uma rede computacional. Assim, "o diagrama em rede permite e estimula a comunicação lateral entre esses nós, de forma que eles mesmos forneçam informações e alimentem o banco de dados". Essa é a ideia de Marco Vinício Zimmer, autor da Tese de Doutorado: O Panóptico está Superado ? Estudo Etnográfico sobre a Vigilância Eletrônica.

Dessa forma, ratificando as ideias de Gilles Deleuze, o autor da Tese reforça que o controle deixa de ter sua origem em apenas um lugar central. A vigilância, a partir da aparição da Sociedade de Controle, emanará de todos os lugares, "como uma rede, sem começo, meio ou fim".

A outra matéria da SUPER é abordando um pouco da velha agonia do governo norte-americano para vigiar a Internet. 

É que um novo projeto de lei está no Congresso dos EUA e prevê o monitoramento de sites e serviços da rede mundial. Obviamente está meio mundo de olho, e reclama da possível regulamentação como contrária a liberdade de expressão, mas o governo de Obama, claro, adverte que a lei é para a proteção da população e contra terroristas apenas.

******

A Tese de Marco Zimmer pode ser encontrada no endereço a seguir:


As matérias da Superinteressante só podem ser lidas integralmente na própria revista em papel. Pelo menos neste mês de publicação. Com o tempo as matérias vão sendo disponibilizadas no Site específico.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Pós-Panóptico chegou...

______________________________


Trago hoje para conhecimento de todos os que aqui navegam as ideias de Zygmunt Bauman sobre o Panóptico. Ou seja, sobre as mudanças que o Panóptico tem sofrido nestes tempos de Modernidade Líquida.

Foram transcritas as páginas 16, 17 e 18 da edição brasileira do livro de Bauman, publicado pela Zahar, em 2001.

O trecho é um pouquinho longo para um blog, mas achei que iria valer a pena tê-lo aqui neste espaço. Principalmente porque o autor não é daquele tipo de intelectual que parece não querer que as pessoas "normais" o compreendam.

Vamos lá, e até a próxima Quarta-Feira.

*****

Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham como arquimetáfora do poder moderno. No Panóptico, os internos estavam presos ao lugar e impedidos de qualquer movimento, confinados entre muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou bancadas. Eles não podiam se mover porque estavam sob vigilância; tinham que se ater aos lugares indicados sempre porque não sabiam, e nem tinham como saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se a vontade.

As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação; dos múltiplos laços de sua subordinação, a "fixação" dos internos ao lugar era o mais seguro e difícil de romper. O domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores — e imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito ao movimento e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em seu exercício do poder. A pirâmide do poder era feita de velocidade, de acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento.

O Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos entre os dois lados da relação de poder. As estratégias dos administradores, mantendo sua própria volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus subordinados, se tornavam uma só. Mas havia tensão entre as duas tarefas. A segunda tarefa punha limites à primeira — prendia os "rotinizadores" ao lugar dentro do qual os objetos da rotinização do tempo estavam confinados. Os rotinizadores não eram verdadeira e inteiramente livres para se mover: a opção "ausente" estava fora de questão em termos práticos.

O Panóptico apresenta também outras desvantagens. É uma estratégia cara: a conquista do espaço e sua manutenção, assim como a manutenção dos internos no espaço vigiado, abarcava ampla gama de tarefas administrativas custosas e complicadas. Havia os edifícios a erigir e manter em bom estado, os vigias profissionais a contratar e remunerar, a sobrevivência e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e cultivada.

Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto, responsabilizar-se pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de um interesse pessoal consciente — e a responsabilidade, outra vez, significa estar preso ao lugar. Ela requer presença, e engajamento, pelo menos como uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.

O que leva tantos a falar do "fim da história", da pós-modernidade, da "segunda modernidade" e da "sobremodernidade", ou a articular a intuição de uma mudança radical no arranjo do convívio humano e nas condições sociais sob as quais a política-vida é hoje levada, é o fato de que o longo esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu "limite natural". O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico — e assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais se reduziu à instantaneidade.


Em termos práticos, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo desacelerado, pela resistência do espaço (o advento do telefone celular serve bem como "golpe de misericórdia" simbólico na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais necessário para que uma ordem seja dada e cumprida.

Não importa mais onde está quem dá a ordem — a diferença entre "próximo" e "distante", ou entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de desaparecer). Isso dá aos detentores do poder uma oportunidade verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos irritantes e atrasados da técnica de poder do Panóptico.

O que quer que a história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez acima de tudo, pós-Panóptica. O que importava no Panóptico era que os encarregados "estivessem lá", próximos, na torre de controle. O que importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento — para a pura inacessibilidade.

O fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisionados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da ordem, e com a responsabilidade pelas conseqüências de tudo, bem como com a necessidade de arcar com os custos.

domingo, 7 de novembro de 2010

Neo-Liberalismo e Controle Social

______________________________
O século XX se encerrou afirmando como utopia uma necessária democracia agenciada pelas forças liberais. Ela deve servir a todos como forma de vida política igualitária capaz de contemplar as diferenças. Trata-se de uma democracia representativa com base em direitos civis, políticos e sociais que espera a participação de todos e se propõe garantidora de direitos a serem contemplados com  base na inspiração multiculturalista. Capitalismo com democracia passou a ser o duplo indissociável que encerrou o século anunciando o retilíneo caminho a ser seguido pela sociedade de controle.
Edson Passetti no livro Anarquismos e Sociedade de Controle (Cortez Editora)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Sociedade vai resistindo diante do Panóptico

______________________________

"O Google está observando você"

Este blog vai fazer um ano de vida. Ele nasceu junto com a ideia de construir algo para, além de informar sobre questões acerca do tema Vigilância e Controle Social, construir conhecimento para um possível vídeo-documentário.

E esta ideia surgiu de um artigo proposto pelo professor da disciplina Novas Tecnologias no curso de Convergência Midiática dentro do qual estou participando.

Em uma das partes do artigo eu abordava as possibilidades de resistência a toda parafernália tecnológica de vigilância, que tanto o Estado, quanto a iniciativa privada se utilizam para bisbilhotar nossas vidas. Hoje, por exemplo, recebi a notícia de que o banco de dados da empresa que trabalho e o do TSE agora vão "conversar" e já é possível se saber se votei ou não nas próximas eleições, sem que seja necessário que eu leve o recibo de votação para confirmação do tal voto na secretaria da empresa.

Sobre a possível resistência eu escrevi no artigo:

Além de tudo, não podemos deixar que o medo, a insegurança, e os discursos policialescos em prol da eficiência da segurança, tomem conta da política pública e se permita uma vigilância generalizada em torno das ações individuais. Na revista norte- americana Popular Mechanics, já citada neste artigo, em reportagem intitulada “Sociedade da Vigilância: Novas Câmeras High-Tech Estão Observando Você”, lembra pesquisa efetuada entre os norte-americanos em julho de 2007 onde 71% dos entrevistados eram a favor do aumento de vigilância eletrônica através de câmeras.
.
Segundo a revista já eram estimadas, naquele momento da publicação, 30 milhões de câmeras em redor dos Estados Unidos. E finaliza: “Os americanos estão sendo observados. Todos nós. Em quase todos os lugares”. Um dos entrevistados na reportagem chega a dizer que “nós estamos entrando na era da vigilância a qualquer preço”, lembrando ter visto uma placa de advertência em uma pequena pizzaria: “Pare de roubar os frascos de temperos! Nós sabemos quem é você, nós temos vigilância 24 horas!”

Então é isso. Ontem e hoje, nos noticiários sobre tecnologia, pudemos ver um bom exemplo de resistência a todo esse discurso de progresso que quer passar por cima de tudo. Segue matéria do portal da Abril.com.

*****
O governo tcheco se recusou a autorizar o Google a coletar informações para nutrir a ferramenta Street View no país. As fotografias já tiradas pela empresa poderão ser utilizadas, mas a utilização de novos dados terá que ser negociada.
O Google tem sofrido ataques de diversos países preocupados com uma possível ameaça à privacidade representada pela função.

Hana Stepankova, representante do governo tcheco, disse em entrevista ao “BBC News” que haviam preocupações em relação a legalidade das ações da companhia, mas que negociações estavam em curso para que a coleta de dados pudesse se feita de acordo com as leis locais.

Segundo um porta-voz do Google, a empresa tem certeza de que opera na legalidade: “implementamos procedimentos rigorosos para proteger a privacidade, como o uso de ferramentas para embaçar rostos e placas de automóveis”.

A decisão tomada na República Tcheca é mais um caso de uma onda de acusações que a gigante da tecnologia tem sofrido. Em maio deste ano, a empresa admitiu a coleta de informações pessoais indevidas durante o processo de captação de dados.

Desde então diversos governos têm enfrentado o Google nos tribunais. Alemanha, Itália e Estado Unidos são alguns deles. Recentemente, um tribunal no Reino Unido absolveu a companhia, tachando como insignificantes os detalhes pessoais adquiridos.

domingo, 22 de agosto de 2010

A Vigilância em Foucault e Orwell

_____________________________


Hoje posto aqui duas formas de exposição acerca do estado de vigilância em que se encontra nossa sociedade. A primeira, acadêmica, faz parte de uma tese de doutorado de Marco Vinício Zimmer, da UFRS, onde ele toma de Michel Foucault algumas análises sobre a "sociedade disciplinar" que nos envolve ainda hoje. Com o título "O Panóptico está Superado ? Estudo Etnográfico sobre a Vigilância Eletrônica", a tese construída defende que o Panóptico, mediado pelas Novas Tecnologias da Informação, continua sendo válido e atual. A segunda forma de cunho artístico/jornalístico é um trecho de documentário sobre o livro "1984", de George Orwell. No documentário de Ned Judge, em co-produção da Discovery e TLC, se faz uma abordagem da vida de Orwell e de sua obra.

As referências de páginas da obra de Foucault no texto de Zimmer são da edição de 2004 do livro Vigiar e Punir.

Vejam ai, e até a próxima Quarta-Feira.

******

A vigilância hierárquica se realiza de duas formas: a partir da explicitação do olhar sobre aqueles que são observados e “das pequenas técnicas das vigilâncias múltiplas e entrecruzadas, dos olhares que devem ver sem ser vistos” (p. 144). Foucault localiza a primeira forma de controle na disposição física das tendas em um acampamento militar ou nos quartos e mesas de refeições das escolas.

Já no contexto industrial, faz-se necessária uma outra forma de vigilância, devido aos incrementos de volume das forças de produção. O olhar “direto” do patrão não é suficiente para abarcar os grandes espaços, a enorme quantidade de trabalhadores que operam nesses locais. Esse novo tipo de controle “é realizado por prepostos, fiscais, controladores e contramestres (...) [e] leva em conta a atividade dos homens, seu conhecimento técnico, a maneira de tazê-lo, sua rapidez, seu zelo, seu comportamento” (p. 146).

Assim, “à medida que o aparelho de produção se torna mais importante e mais complexo, à medida que aumentam o número de operários e a divisão do trabalho, as tarefas de controle se fazem mais necessárias e mais difíceis” (FOUCAULT, 2oo4b, p. 146).

A vigilância, em todas as estruturas institucionais, seja de forma explícita ou implícita, viabiliza a disseminação do poder disciplinar, no que Foucault denomina a “microfísica do poder” (FOUCAULT, 2004a), qual seja, o estabelecimento de formas e de relações de poder em tudo, em todos e entre todos, não numa ótica dualista marxista (oposição capital - trabalho), mas sim permeando todo o tecido social, todas as formas de relacionamento entre os seres humanos. Para Foucault, o poder, em si, não é bom ou ruim, não é determinado a priori de forma negativa: ele “está”. Nas suas palavras, “temos que deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “abstrai”, “mascara”, “esconde". Na verdade o poder produz; ele produz realidade” (FOUCAULT, 2004b, p. 161). Assim, a vigilância
“permite ao poder disciplinar ser absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta, pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; e absolutamente “discreto”, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio” (FOUCAULT, 2004b, p. 148).
******



****

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Panóptico aqui e agora !!!

______________________________


É possível imaginarmos o que queria realmente Jeremy Bentham quando fez seus projetos do Panóptico ?

Consertar a humanidade ? Possibilitar aos presos uma redenção e retorno à sociedade ? Transformar alunos inquietos em Homens e Mulheres disciplinados ?

É bem provável que ele desejasse tudo isso. E muito mais.

Ele perdeu quase todo seu dinheiro (herança, salário, poupança) tentando construir edifícios (penitenciárias) que mostrassem à sociedade da época (final do Séc.XVIII) que ele estava certo. Que a partir da vigilância e do controle na medida certa o funcionamento de prisões, escolas, hospícios seria muito mais eficiente.

Podemos até entendê-lo como um antecessor de behavioristas como Pavlov ou B.F.Skinner. Em um dos seus textos sobre a vigilância nas escolas ele demonstra como acreditava de verdade na possibilidade de maior apredizado para alunos que perceberiam a vigilância e fariam o que tinha de ser feito na hora determinada: Estudar na hora de estudar, brincar na hora de brincar.

Em alguns dos vídeos reportagens que já postei aqui dá para ver como alunos respondem aos repórteres de forma a entendermos que a grande quantidade de câmeras nas escolas faz com que alunos inquietos se "acalmem", "melhorando" o ambiente escolar.

Então, é possível afirmar que Bentham estava certo ? Na sua ânsia racionalista ele percebeu que o ser humano tem de ser vigiado e controlado para que a sociedade consiga progredir ?

Vigilância, Controle, Motivação, Punição, Agrado, Disciplina... são estas as palavras chaves para uma sociedade melhor ?

Vocês podem até dar risadas... mas tive a idéia deste texto ontem a noite... depois de assistir a mais um "paredão" do BBB10...

Milhões de votos de observadores anônimos de uma espécie de Panóptico quase perfeito privilegiaram uma das participantes. Um dia antes a mesma participante havia descaradamente e deliberadamente montado um esquema para "sujar" a imagem da sua concorrente. Mas alguns dias antes a mesma participante dava o "colar de anjo" para a mesma que estava ali sendo ultrajada por suas palavras...

Ou seja, o Panóptico quase perfeito, desesperadamente desejado por Bentham há mais de 200 anos atrás, permite que milhões de pessoas vigiem e controlem pessoas que provavelmente nem inibem, nem reforçam sua melhores ou piores qualidades.

Um Panóptico que nem melhora, nem piora a sociedade... apenas sinaliza continuidades e descontinuidades.

Que apenas projeta a sombra da própria sociedade.

Aliás como qualquer Panóptico, infelizmente para os sonhos de Bentham.

Infelizmente também para nós que a cada dia que passa vemos mais Panópticos sendo construídos.

Domingo retorno por aqui.

domingo, 14 de março de 2010

O Drama do Panóptico

_____________________________
.
Fonte: http://bloglideranca.files.wordpress.com
.
O Panóptico como já afirmei anteriormente surge devido ao desejo desenvolvido por Jeremy Bentham de conseguir uma resposta eficiente que produzisse um novo ordenamento, racional e jurídico, a uma sociedade que a cada dia que passava (Inglaterra dos anos finais do Sec. XVIII) tolerava menos os improdutivos, os vadios, os delinquentes.

Além do que o "Homem Racional", representação característica do Século das Luzes, não via mais com bons olhos os castigos "clássicos" (como podemos ler no capítulo introdutório de Vigiar e Punir de Michel Foucault).

Portanto era necessário estabelecer métodos e dispositivos que facilitassem o controle, por exemplo, sobre homens e mulheres presas em penitenciárias (cada dia mais lotadas e cheias de corrupção), sobre os loucos nos hospícios, ou sobre crianças e adolescentes nas escolas.

No livro já citado na postagem anterior, em texto complementar (posfácio da edição francesa de 1977), O Inspetor Bentham, a historiadora Michelle Perrot nos conduz a uma análise crítica do Panóptico, dispositivo considerado ideal por Bentham para vigilância e controle em espaços fechados.

Trago aqui parte deste texto para o deleite daqueles que por aqui navegam.

Boa leitura e Quarta-Feira volto a postar.

*****

O Panóptico exerce na vida e obra de Bentham um lugar considerável.

Durante vinte anos, a realização de tal projeto foi sua maior obsessão, uma espécie de idéia fixa que por vezes surpreendeu seus amigos e foi até tachada de loucura. Tornar-se diretor de um cárcere modelo, responsável por uma torre de controle, por um local de observação, foi sua maior ambição - por ela se arruinou.

É que o inspetor central encarnava, muito mais do que um guarda de prisão, a imagem mesma do poder, fundamentada numa grande convicção no poder da educação e da disciplina.

Para Bentham "se encontrarmos um meio de controlar tudo o que pode acontecer a um certo número de homens, de dispor de tudo o que os rodeia, de modo a causar neles a impressão que queremos produzir, de assegurarmo-nos de suas ações, de suas ligações, de todas as circunstâncias de sua vida, de maneira que nada possa escapar nem opor-se ao efeito desejado, não podemos duvidar que um meio dessa espécie será um instrumento muito enérgico e muito útil que os governos poderiam aplicar a diferentes objetivos da maior importância”.

Grandiosa abertura de toda uma literatura totalitáría, O Panóptico é um grande texto político, sobre o qual Michel Foucault assinalou a importância: não se poderia fazer melhor.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Panóptico nas Escolas

______________________________

Reportagem de 06 de Maio de 2009

A reportagem transmitida acima foi encontrada no YouTube, sem a informação de fonte (qual TV, qual Programa). Mas serve nesta postagem como complemento ao texto que segue.

O texto encontra-se no livro O Panóptico, com autoria de Jeremy Bentham (Edt. Autêntica).

Boa leitura e até domingo.

*********
Depois de aplicar o princípio da inspeção às prisões e, passando pelos hospícios, e chegar aos hospitais, suportará o sentimento dos pais que eu o aplique, finalmente, às escolas ?
Será a observação de sua eficácia na prevenção da aplicação irregular de rigor indevido até mesmo aos culpados suficiente para dissipar a apreensão relativamente à sua tendência a introduzir a tirania nas moradas da inocência e da juventude ?
Aplicado a esses locais, você o achará capaz de dois graus bastante distintos de extensão. Ele poderá estar confinado às horas de estudo; ou pode-se fazer com que ele preencha todo o ciclo diário, incluindo as horas de repouso, descanso e recreio.

Relativamente à primeira dessas aplicações, a timidez mais cautelosa dificilmente poderia imaginar, creio, qualquer objeção. Com respeito às horas de estudo não pode haver, creio, se não um único desejo, de que eles se apliquem ao estudo. Nem é preciso observar que grades, barras e ferrolhos, e toda característica que possa dar a uma casa de inspeção seu terrível aspecto, não têm nada a fazer aqui.

Toda brincadeira, toda conversa, em suma, toda distração de qualquer tipo, está efetivamente descartada pela situação central e protegida do mestre, secundado pelas partições de telas - tão discretas quanto se queira - entre os estudantes.
*******

Lembramos a todos que as cartas de Bentham foram escritas em 1787 e tornam-se famosas nos anos 70 do Século XX por influnciarem Michel Foucault resultando numa re-leitura do Panóptico.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

As Câmeras e a Sociedade do Panóptico

______________________________


Fonte: http://nossagora.blogspot.com/2008/07/foucault-vigiar-e-punir.html

As câmeras de vigilância se tornam mais eficientes a cada dia que passa. Hoje são digitais e “inteligentes”, com capacidade cada vez maior de observação de detalhes. Capazes de perceber e alertar sobre modificações de fluxos de pessoas, como as hoje existentes nas estações de metro de Londres.

Ou como as câmeras nos aeroportos americanos, capazes de analisar, quando ligadas a possantes computadores, padrões faciais de indivíduos, traduzindo estas feições para identificação de possíveis riscos: terrorismo, assaltos, questões de saúde pública, etc. Verdadeiras peças “neo-lombrosianas” com jeito de ficção científica.

Assim, como nas teletelas orwellianas, as câmeras não teriam como meta a punição exemplar, mas a prevenção.

Boa parte da defesa destes processos de vigilância e controle se dá no sentido da sua inevitabilidade, sinalizada pelo resultado com relação à segurança pública, e pelo controle dos fluxos e interações dentro dos territórios de ocupação sociais.

No artigo "Poder, Vigilância e Ciberespaço", Valéria Marcondes, faz um pequeno resumo sobre o pensamento de Foucault, no que diz respeito a questão dos dispositivos de controle sociais. No texto ela fala sobre o estabelecimento, a partir do Séc. XVIII, de uma tecnologia do poder, quando se iniciam estudos sistemáticos sobre disciplina e controle social. Escolas, prisões, hospitais, conventos, fábricas, são locais exemplares para se entender o que o filósofo chamava de Sociedade Disciplinar.

Segundo ela, Foucault veria as tecnologias de vigilância nascidas destas sociedades apenas por seu viés negativo. Os indivíduos estariam assim presos numa malha de poderes localizados por toda a sociedade. Assim, para Valéria Marcondes, Foucault via aquelas tecnologias apenas como “ferramentas do poder, utilizadas para suprimir a liberdade e impor limites aos cidadãos".

Dentro desta linha de compreensão de que as tecnologias sempre serão usadas por governos e empresas para seu benefício a autora usa outro autor: William Bogard. Baseando-se no livro de Bogard, A Simulação da Vigilância: Hipercontrole em Sociedades Telemáticas, defini-o como "tecnofóbico": "Onde a vigilância não pode capturar um evento, sua simulação pode, e oferece este poder para qualquer um".

A frase acima no início do livro de Bogard nos faz, mais uma vez, lembrar do Panóptico... Uma simulação constante de vigilância. Não é difícil encontrar-se exemplos claros desta grande rede de vigilância. Um caso passível de análise é, por exemplo, a seção de futebol do programa dominical da Rede Globo, o Fantástico. Ali o jornalista brinca com os vídeos enviados pelos telespectadores para uma seleção de “Bolas Murchas” e “Bolas Cheias”.

Não é difícil se concluir que todos estamos sendo filmados por nossos próprios parentes ou amigos e podemos ser "exibidos" para todo mundo no domingo a noite, ou nas pequenas telas do YouTube.

domingo, 8 de novembro de 2009

Filosofia no Fantástico

______________________________

Há algum tempo a revista semanal da TV Globo, o Fantástico, vem se tornando um grande release da própria programação daquela TV.

É um tal de fazer referência às novelas, seja descaradamente falando delas, ou criando links com assuntos "importantes". Então se fala sobre esquizofrenia quando o mocinho da novela das 8 tem essa doença, debate-se alcoolismo quando um personagem padece desse mal.

Essa semana que passou por exemplo falou-se um montão de moda, vida de modelos, etc. Advinha por que ?

Mas o Fantástico, de vez em quando, fazendo valer a concessão pública dada a Rede Globo para levar conhecimento aos seus espectadores, produz reportagens bem interessantes.

Esse foi o caso da série Poeira nas Estrelas, por exemplo. O astrônomo Marcelo Gleiser de forma belíssima, adicionado à "qualidade global", expõe antigas respostas para questões como "de onde viemos, para onde vamos".

Também de forma fascinante, e aqui voltamos para nosso tema de pesquisa, a filósofa Viviane Mosé, com uma didática simples, constrói a série Ser ou Não Ser, em 9 capítulos.

O tema principal de um dos capítulos, que foi ao ar no dia 22 de Outubro de 2006, foi Vigilância como Forma de Dominação. Com uma certa ironia ela explica como somos vigiados a vida inteira, desde o útero, com aparelhos de ultrassom.

Assistam o vídeo, com 9 minutos e 30 segundos.



Na Quarta-Feira estou de volta.

Aproveite esse tempo para comentar ai embaixo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Resenha: Vigiar e Punir

______________________________



Esta vai ser a primeira postagem de uma resenha dos livros que venho pesquisando e que têm referência com o tema Vigilância e Controle Social.

Nela falarei do livro Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (Editora Vozes, 2009) de Michel Foucault.

Obra fundamental para se compreender o funcionamento de dispositivos disciplinares, base para o desenvolvimento do que se convencionou chamar de Sociedade de Controle.

****

Foucault além deste livro também escreveu outras obras como As Palavras e as Coisas, um estudo epistemológico das Ciências Sociais, e Arqueologia do Saber, onde ele propõe uma investigação e uma análise histórica e profunda, opondo-se a um falso objetivismo cientifico.

Vigiar e Punir teve sua primeira edição publicada na França em 1975, com o nome Suerveiller et Punir.

Com a perspectiva investigativa explicada por ele em Arqueologia do Saber ele pretende nesta obra analisar a genelogia da prisões, e consequentemente das estruturas construídas através dos anos, com suas continuidades e descontinuidades históricas.

A primeira parte do livro, nomeada “Suplício”, se inicia com uma técnica conhecida desde os anos 60 como Micro-História, com Carlo Ginzburg (O Queijo e os Vermes). A partir de documentos do final do Sec. XVIII ele mostra, perturbadoramente, como ocorriam as penas de morte, para aqueles que eram julgados culpados por assassinato.

Partindo do caso específico de Robert-François Damiens, julgado parricida, ele usa as peças originais do processo que se deu em 1757, além das notícias encontradas na Gazette d´Amsterdam, de 01/04/1757, para demonstrar como ele foi executado.

A execução se deu em praça pública. A condenação inclui pedir perdão publicamente, e logo após uma série de atos violentos sobre seu corpo:

... atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas... e as partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente... seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seu membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento. (página 9).
Neste mesmo capítulo e no seguinte Foucault vai escavando e encontrando vestígios e indícios (como um arqueólogo) das mudanças estruturais que vão ocorrendo entre as punições exibidas em público através do suplício dos acusados até meados dos Sec. XIX e a criação de tecnologias e dispositivos disciplinares que permitissem que a sociedade se saciasse apenas com as prisões dos indivíduos, sem “a melancólica festa de punição” (página 15).

Época em que as ciências penais vão se modificando. A punição começa a ser levada a cabo, sistematicamente, por meio da vigilância em prisões. O juri adotado quase toda parte e a definição do caráter essencialmente corretivo da pena são alguns dos novos dispositivos de controle do sistema penal, a partir daquele momento.

É na terceira parte, entitulada “Disciplina”, onde a questão da vigilância e do controle sobre os individuos é estudada pormenorizadamente.

Foucault vai demonstrando como evolui o controle dentro das prisões, partindo da necessidade de tornar os presos dóceis (corpos dóceis) a partir de técnicas disciplinares adequadas.

Regras disciplinares que obrigam o preso a ter um dia igual ao outro. Horas determinadas para ações determinadas. Esquemas hierárquicos sólidos e vigiados todo o tempo com o único objetivo de reforçar o poder disciplinar:

O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior 'adestrar'... Em vez de dobrar uniformemente e por massa tudo o que lhe está submetido, separa, analisa, diferencia, leva seus processos de decomposição até as singularidades necessárias e suficientes. 'Adestra' as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos... (página 164).
O sucesso disciplinar se deve ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico e a sanção normalizadora.

Foucault dá vários exemplos do que considera como olhar hierárquico. A arquitetura das instituições vão sendo cada dia melhoradas para justamente incrementar essa possibilidade de olhar, de observar. O acampamento militar, cidades operárias, asilos, escolas... vão sendo construídos para permitir que se consiga observar a maior quantidade possível de indivíduos de uma só vez.

O aparelho disciplinar perfeito capacitaria um único olhar a tudo ver permanentemente. Um ponto central seria ao mesmo tempo fonte de luz que iluminasse todas as coisas, e lugar de convergência para tudo o que deve ser sabido: olho perfeito a que nada escapa e centro em direção ao qual todos os olhares convergem. (página 167).
Assim surge a idéia central do Panóptico. O efeito mais importante deste dispositivo seria “induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”. (página 191).

Entendendo as causas e efeitos da arquitetura do Panóptico nos espaços fechados não fica difícil de se compreender a sua transposição hoje (como metáfora) para os espaços abertos, com as milhões de câmeras espalhadas pelas ruas, ou pelos celulares móveis que permitem a localização de seus usuários via GPS, por exemplo.

Domingo continuamos.

domingo, 25 de outubro de 2009

A Metáfora do Panóptico

_______________________________

No nosso dia a dia podemos perceber a vigilância em diversas instâncias. No trabalho, no hospital, no aeroporto, comprando alguma buginganga na Internet... e na escola.

Em reportagem do Jornal Hoje, da Rede Globo, em 20 de Agosto desse ano, podemos verificar o debate provocado dentro de uma escola (e fora dela) quando se dá visibilidade aos dispositivos de vigilância. Neste caso, os dispositivos são as câmeras para filmar as aulas e os diversos dados disponibilizados aos pais dos alunos, online, para que no mesmo dia aqueles possam saber como foi o dia dos seus filhos.

Assistam a reportagem.
.


E ai ?

Que perguntas devem ser feitas em um momento desses ? E se fizéssemos as perguntas que seguem abaixo ?
Será que o espírito liberal e a energia do cidadão livre não seriam substituídos pela disciplina mecânica de um soldado ou a austeridade de um monge ? E não será que o resultado desse sofisticado dispositivo não será o de produzir um conjunto de máquinas sob a aparência de homens ?. *
Pois estes foram apenas alguns dos questionamentos que fez Jeremy Bentham, em 1787, ao discutir sobre a implantação do panóptico não só nas penitenciárias (Casa de Inspeção), mas também nas escolas.

Mas para ele, mesmo com todas aquelas considerações, era sim aplicável
sem exceção, a todos e quaisquer estabelecimentos, nos quais, num espaço não demasiadamente grande para que possa ser controlado ou dirigido a partir de edifícios, queira-se manter sob inspeção um certo número de pessoas. *
Teríamos na vigilância dentro das escolas, então, uma metáfora ao panóptico de Bentham.

Seria assim possível se perceber uma semelhança entre o velho dispositivo arquitetônico e os dispositivos disponíveis hoje através de novas e não tão novas tecnologias. O edifício central de onde se visualizaria todos os movimentos daqueles que se desejaria vigiar pode ser comparado, de uma maneira metafórica, com as câmeras espalhadas pela escola da reportagem.

Discussões explodem, em diversas ordens, quando o assunto é Controle. E quando se discute Vigilância, de uma forma ou de outra, se discute também Controle. E a partir dai surgem questões éticas, políticas, e de uma forma geral, questões vitais para se debater o futuro da democracia.

Quarta-Feira volto para novas análises.

Enquanto isso espero que aqueles que por aqui navegam possam fazer suas críticas ou complementar o trabalho de pesquisa que por aqui vou deixando.

* As citações de Bentham encontram-se no livro O Panóptico, da Editora Autêntica

domingo, 18 de outubro de 2009

O Panóptico

______________________________


Foto: peramblogando.blogspot.com

No final do Séc. XVIII o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham concebeu pela primeira vez a ideia do panóptico. Para isto Bentham estudou “racionalmente”, em suas próprias palavras, o sistema penitenciário. Criou então um projeto de prisão circular, onde um observador poderia ver todos os locais onde houvesse presos. Eis o panóptico.

Ele também observou que este mesmo projeto de prisão poderia ser utilizado em escolas e no trabalho, como meio de tornar mais eficiente o funcionamento daqueles locais.

Foi naquele período da história que, segundo o francês Michel Foucault, iniciou-se um processo de disseminação sistemática de dispositivos disciplinares, a exemplo do panóptico. Um conjunto de dispositivos que permitiria uma vigilância e um controle social cada vez mais eficientes, porém, não necessariamente com os mesmos objetivos “racionais” desejados por Bentham e muitos de seus antecessores e contemporâneos .

Dos anos 60, do Séc. XX, quando Foucault escreveu suas primeiras obras, até o início do Séc. XXI, novas tecnologias de comunicação e informação surgiram, permitindo novas formas de vigilância que por vezes se tornam tão dissimuladas que não são facilmente percebidas pelos indivíduos. Tornam-se também naturalizadas, não deixando claros todos os objetivos de quem se utiliza daquelas novas técnicas de vigilância.

Nestes novos tempos a vigilância também vem adquirir uma nova característica. A possibilidade de observação de todos sobre todos. Hoje é possível ao patrão ler mensagens de correio eletrônico de seu empregado, mas também existe a possibilidade de colegas lerem mensagens de colegas, maridos de esposas, pais de filhos, a partir de ferramentas gratuitas disponíveis na Internet, por exemplo.

Empresas conseguem, a partir de celulares, monitorar o local onde se encontram seus empregados. Governos e crackers podem, com o instrumental adequado, ter as informações bancárias de qualquer cidadão, a partir de banco de dados individuais (como aqueles referentes a antiga CPMF, por exemplo) e câmeras digitais vigiam cada metro quadrado de aeroportos.

O panóptico se disseminou. E como afirmou enfaticamente em meados dos anos 90 outro filósofo francês, Giles Deleuze, isso gerou a criação de uma Sociedade de Controle.

É a partir deste quadro que se considera interessante a existência de um veículo de comunicação que dê visibilidade ao tema Vigilância e Controle Social. A partir de uma mídia que ajude a suprir a demanda de conhecimento sobre aquele tema.

Dessa forma a criação de um novo veículo de comunicação teria os objetivos de difundir, debater, e ampliar uma discussão sobre o tema que permita às pessoas a compreensão sobre o funcionamento dos dispositivos disciplinares e da Sociedade de Controle.