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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tecnopolítica e Anarquismo

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"Tecnopolítica e Anarquismo" 

19/02 - Sábado, 14h!

Cada vez mais utilizamos as novas tecnologias para nos comunicar, mas
 que acontece quando usamos ferramentas criadas e administradas por
grandes empresas? Você sabia que o YouTube passa a ser dono dos vídeos
que você publica lá? Que o Gmail passa seus dados privados para a
polícia, caso seja solicitado? Que o Facebook pode apagar a tua conta
e os teus contatos se descobre que você não usou seu nome verdadeiro
ou que usa a sua conta com fins politicos?


Venha discutir estas questões e conhecer que alternativas temos, este
sábado dia 19/02, as 14h, na Biblioteca Social Fábio Luz.

Rua Torres Homem 790 - Vila Isabel
Perto do final do Boulevard 28 de Setembro e da Escola de Samba Vila Isabel
Rio de Janeiro - RJ

# ônibus: 232, 433, 222, 438, 638, 269
# metrô: integração Vila Isabel
# trem: estação Maracanã e descer até o final da 28 de Setembro

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vigilância sobre o Consumidor

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O tema Consumismo é bem familiar a autores como Zygmunt Bauman (já apresentado aqui neste blog) e Gilles Lipovetsky (que será apresentado em breve).

É impossível se referir a tal tema sem citá-los.

Mas a Revista Surveillance & Society (online) fez um trabalho excelente ao combinar o tema consumismo ao da vigilância. A publicidade e o marketing não são, há muito tempo, coisa de criança. Essas duas "ciências" nasceram no interior do capitalismo. Da necessidade de fazer com que os indivíduos consumissem: Produtos ou ideias.

A Revista Surveillance & Society publicada semana passada tem a intenção de informar como esse fenômeno se processa atualmente. Com todo aparato tecnológico disponível para os marqueteiros e publicitários.

Trago aqui no post de hoje um trecho traduzido do Editorial da Revista: Marketing e o Crescimento da Vigilância sobre o Consumidor.

No próximo post (após férias bem merecidas de 15 dias) trarei mais trechos daquele editorial.

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Ao longo dos anos, análises de vigilância e teorias sobre prática de marketing abordaram a vigilância comercial e corporativa de consumidores em uma variedade de formas. Em um dos exemplares iniciais para detalhar a vigilância de consumidores, Oscar Gandy confiou no uso do Panóptico de Foucault para descrever práticas corporativas. O texto de Gandy, The Panotic Sort, articula-se em mecanismos que agem como “um tipo de triagem cibernética de alta tecnologia através da qual indivíduos e grupos de pessoas estão sendo classificados de acordo com seu presumido valor econômico ou político” (Gandy 1993, 1-2). Os dados dos consumidores são reunidos e analisados de maneiras que servem para ditar as ofertas corporativas para várias categorias e segmentações de clientela. Essa classificação panóptica explora dados comportamentais passados para estreitar e limitar seletivamente opções apresentadas para transações futuras, tudo isso baseado na identificação, classificação e avaliações de consumidores atuais e potenciais. Esse marketing racionalizado classifica alvos econômicos de alta qualidade e descarta outros na sua trilha discriminatória, existindo, argumenta Gandy, como um sistema de controle anti-democrático.

Essas considerações são depois expandidas em um trabalho posterior no qual ele indica que parte do problema é que a ilusão da escolha é mantida em um pano de fundo de uma faixa de opções que se estreita continuamente (1996). Gandy mostra como a relação entre compradores e vendedores tem se tornado uma transação impessoal controlada pela inteligência cibernética. Ela usa uma coleção de dados pessoais cada vez mais automatizada para presumidamente permitir uma forma de marketing personalizado (ibid.). Em um trabalho posterior de co-autoria com Anthony Danna, a perspectiva de Gandy é aplicada a um elemento chave na Gestão da Relação com o Consumidor, percebendo a exploração de dados como um processo de classificação social. Danna e Gandy (2002) sugerem que as conseqüências sociais de práticas de exploração de dados são consistentemente ignoradas e que essas práticas podem excluir classes de consumidores da total participação no mercado (ver também Zwick e Dholakia 2004a). Eles apelam para que as corporações examinem o custo potencial que essas técnicas discriminatórias terão sobre determinados grupos sociais e sugerem que as corporações precisam considerar mais do que os lucros ao realizarem o marketing com base em práticas de exploração de dados.
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Gandy, O. H. 1993. The Panoptic Sort: A Political Economy of Personal Information. Boulder, CO: Westview.
——. 1996. Coming to Terms with the Panoptic Sort. In D. Lyon and E. Zureik (eds) Computers, Surveillance, and Privacy. Minneapolis: University of Minnesota Press.
——. 2009. Coming to Terms with Chance: Engaging Rational Discrimination and Cumulative Disadvantage. Farnham, Surrey:Ashgate.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais sobre Controle de Dados na Internet

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Novas notícias a respeito da legislação européia sobre privacidade de dados em redes como a Internet.

Vejam ai embaixo.
A União Europeia vai apresentar um conjunto de normas para a computação em nuvem cobrindo áreas como a proteção de dados, privacidade e abordagens comuns para o desenvolvimento da cloud. Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, a comissária europeia para o digital, Neelie Kroes, afirmou que essas são algumas das principais questões enfrentadas na computação em nuvem e que a própria União Europeia tinha um papel a desempenhar no processo.

"Esta é uma situação complexa e ninguém pode ter todas as respostas. E a computação em nuvem, vai acontecer de qualquer maneira”, disse. "A UE tem um papel a desempenhar: podemos ajudar a fazer isso acontecer de forma mais suave ou rápida”.

Com tantos governos à procura de formas para cortar os gatos públicos, Kroes apontou a redução de custos com tecnologia como um bom passo, mas alertou que isso não significaria relaxar outras salvaguardas. “Como utilizadores da cloud, incluindo organizações do setor público, olhe-se para uma esperada economia com ganhos de produtividade em toda a economia europeia. Um claro papel dos governos é também garantir que as conquistas europeias, como a proteção efetiva dos dados e o mercado único, não se choquem com a computação em nuvem”, disse.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mais proteção para dados na internet

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O texto que reproduzo hoje aqui aborda a possível nova regulamentação acerca da proteção de dados no Brasil. Algo que já vem sendo legislado em países europeus a bastante tempo.

Leiam. E até o próximo Domingo.

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Apesar da previsão constitucional que protege a intimidade dos cidadãos, o Brasil é um dos poucos países com expressividade econômica na América do Sul que ainda não tem lei específica para proteção de informações pessoais em bancos de dados. Atento a essa necessidade, o Ministério da Justiça iniciou em dezembro de 2010 uma consulta pública sobre o anteprojeto de lei que pretende garantir a proteção de dados pessoais, inclusive na internet. Apesar de bastante técnica, a proposta tem sido elogiada, pois deverá regular redes sociais e dados de proteção ao crédito. O desafio, segundo especialistas, é fechar o texto o mais rápido possível, para que possa ser encaminhado ao Congresso Nacional.

O debate sobre a proposta de proteção de dados pessoais está sendo feito por meio de um blog da plataforma pública Cultura Digital. O encerramento da consulta pública estava marcado para o dia 31 deste mês, porém, foi prorrogado para 31 de março. Com a lei, o governo pretende criar um marco regulatório e o Conselho Nacional de Proteção de Dados Pessoais para gerenciar o uso e a divulgação de informações como endereço pessoal, número de documento do cidadão, situação de crédito e até os chamados "dados sensíveis", entre eles a opção religiosa e sexual.


Hoje, muitos desses dados são fornecidos ao governo, a empresas ou a sites na internet pelo cidadão e, posteriormente, usados sem o seu conhecimento. Há casos de empresas que vendem ou cedem a terceiros dados pessoais de seus clientes sem autorização. A partir da aprovação da lei, as pessoas terão de dar o seu consentimento para que qualquer empresa ou banco possa utilizar as suas informações. A regra vai valer também para multinacionais.

De acordo com o doutor em Direito Civil Danilo Doneda, consultor do Ministério da Justiça e um dos responsáveis pela elaboração do anteprojeto, a proposta não se baseia na ideia de "silêncio", ou seja, de sigilo dos dados pessoais, mas sim de controle. Numa compra feita a prazo, em que é necessário cadastro do consumidor, a empresa terá de pedir autorização expressa para usar as informações e dizer o que vai fazer com os dados.

"O consumidor tem de ser informado das consequências da compra e o motivo de as informações serem solicitadas. Em compras feitas à vista, ele não precisa informar o quanto ganha, por exemplo. Entendo que este caso fere o princípio da proporcionalidade, pois ninguém pode pedir mais informação do que a necessária", explicou.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Mídia & Controle Social II

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Qual seria o objetivo de mídias alternativas às atuais mídias de massa, propriedades de poucas famílias ou corporações?

Talvez mostrar como as elites dominantes criam e manipulam aquelas mídias ao seu bel prazer contra as classes trabalhadoras. Quem sabe para apresentar um outro discurso sobre a mídia de massa ao qual a maioria das pessoas não está acostumada a ler ou ouvir. Serviriam também, por exemplo, como espaço criativo, onde estudantes e profissionais da área de comunicação, poderiam compreender certos aspectos que envolvem a natureza dos meios de comunicação de massa, como, por exemplo, sua influência sobre a população, como formadora de opinião.

Nestes espaços poderemos discutir, por exemplo, de que forma a mídia de massa serve de mecanismo de difusão ideológica, como esclarece o sociólogo Pierre Ansart : “De fato, uma ideologia sistemática será incessantemente difundida por esses grandes mediadores dos significantes políticos, ideologia conforme a estrutura da propriedade, incitando à conformidade com a ordem estabelecida e a ver a política como um espetáculo pouco sério”.

Ou debater, também, porque aquela mesma mídia de massa se encontra do lado dos poderosos, cujos interesses, segundo o historiador francês Georges Duby, “encontram-se servidos por modelos ideológicos mais bem armados que os outros, e geralmente dão-se ao luxo, na medida em que sua superioridade material lhes parece mais segura, de encorajar as inovações no campo da estética e da moda. Contudo, no fundo delas próprias, mostram-se atentas a se defender contra todas as mudanças menos superficiais que poderiam vir a colocar em questão os poderes e vantagens que detêm”.

É possível evidenciar as posições acima descritas, por parte de quem domina a sociedade em que vivemos, a partir da compreensão do que fazem as mídias de massa em determinados momentos da vida urbana. Durante uma greve, por exemplo.

Ali, podemos perceber, em qualquer pesquisa que fizermos, quanto mais radicais as movimentações, mais tendenciosas são as respostas das mídias de massa, e de seus interlocutores, os jornalistas.

Talvez por temor de que aquele tipo de luta permita que se rompa o véu da alienação social, revelando o caráter superficial e dissimulado das ações e discursos dos “dias comuns”, mesmo que temporariamente.

Pois aquele tipo de luta tende a permitir que os sujeitos, que dela participam, adquiram a partir da sua experiência, e do emaranhado de discursos produzidos dentro dela, a capacidade de produzir novas ações, novas significações e de enfrentar criticamente os discursos entre os quais circulam, levando-os a serem donos de sua própria voz.

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Texto reproduzido do blog Mídia Rebelde de 29 de Fevereiro de 2008

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Mídia & Controle Social I

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"Ir para onde está o silêncio. Esta é a responsabilidade de um jornalista: dar voz àqueles que foram esquecidos, abandonados, afastados pelo poder. Essa é a melhor razão que conheço para carregar nossas canetas, câmeras e microfones em nossas próprias comunidades e pelo mundo afora". Esta é uma citação do livro Corrupção à Americana, de Amy Goodman, Editora Bertrand Brasil, publicado em 2005. .

Concordo completamente com a autora, jornalista da organização Democracy Now, que faz uma crítica feroz ao atual governo americano, com relação a sua presença no Iraque, e a governos anteriores, acerca da posição americana quanto ao Timor Leste, por exemplo. .

Mas, obviamente, isto é uma escolha. É a partir dessas escolhas que o jornalista constrói sua agenda de notícias e assuntos a serem debatidos em seus textos. E, quando falo de escolhas, também falo de escolhas editoriais, que, normalmente, refletem as posições dos editores ou proprietários dos jornais. .

Vou me aproveitar mais uma vez da revista semanal Época, de 21 de maio de 2007, para demonstrar como penso que isso funciona de uma forma prática e rotineira. Peguei essa revista e me fixei a seus colunistas ("Nossos Colunistas"). Gustavo Franco, Max Gehringer, Fareed Zakaria e Ricardo Freire. .

Tive a impressão, ao terminar de ler os quatro artigos, de estar vivendo em um mundo de uma só direção. Talvez o chamado mundo de um só pensamento. Os títulos já demonstram boa parte do que será o resto do texto: Sete idéias ruins para jogar fora; O fruto do trabalho... alheio; É errado ter medo do livre-comércio; e finalmente, Os segredos para voar pagando pouco. 

Em todos os artigos é possível perceber que seria bom para o mundo que o Deus Mercado fosse respeitado, que as leis trabalhistas fossem flexibilizadas, que se deve desonerar as empresas privadas dos impostos, que os trabalhadores devem competir dentro das empresas para que vença o melhor... 

Se agregarmos a isso algumas das entrevistas, teremos pérolas de defesa do sistema neoliberal, onde o que importa é a livre competição que sempre trará, na opinião dos entrevistados, o progresso e o sucesso. Como em trecho da entrevista de Ian Bremmer, onde ele diz que "há uma crescente convergência entre esquerda e direita no país sobre a necessidade de conduzir reformas no sistema de aposentadorias e nas finanças públicas". Dá prá perceber pelo resto do texto que a "convergência" a que ele se refere é aquela que tira os direitos dos trabalhadores e, mais uma vez, desonera um tal de "Custo Brasil". 

Tudo bem que a revista não é nenhum órgão de imprensa de agrupamento de esquerda, mas bem que eu gostaria de, de vez em quando, ler opiniões contrárias a toda essa linha editorial, que privilegia os textos pró-reformas, esquecendo-se dos "esquecidos e abandonados" trabalhadores. 

Outro dia uma professora me disse que eu estava muito pessimista a respeito do mundo, pois privilegiei, em projeto de pesquisa, algumas citações que viam o mundo num beco quase sem saída. Mas não é essa uma das maneiras de começarmos a querer uma mudança ? 

Para encerrar este post deixo aqui uma daquelas citações, que admiro pela simplicidade e clareza, de Ignácio Ramonet, diretor-presidente do Le Monde Diplomatique, encontrada no livro Ensaios sobre o Neoliberalismo, da Editora Loyola: 

"Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres sentem-se atolados, lambuzados por um tipo de doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo raciocínio rebelde, inibi-o, desorganiza-o, paralisa-o e termina por asfixiá-lo. Essa doutrina constitui o 'pensamento único', única autorizada por um invisível e onipresente controle de opinião". 

Texto originalmente postado no blog
em Maio de 2007

domingo, 16 de janeiro de 2011

Orwell e Huxley estavam certos

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2011: A Brave New Dystopia
by Chris Hedges


As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.

O partido busca todo o poder pelo poder, Orwell escreveu em 1984. Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mídia, Controle e Guerras

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O vídeo a seguir é a primeira parte do filme que tem a direção de John Pilger. Um documentário que tenta explicar como a grande mídia (e seus proprietários) controla a sociedade, a partir da análise de como ela faz para iniciar e consolidar guerras.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Identificando Padrões de Comportamento

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Texto encontrado na Revista Galileu (online) demonstra como estamos cada vez mais sendo observados "para o nosso próprio bem", como diria o Grande Irmão. E o quanto as técnicas de vigilância encontram-se avançadas para que o controle do Estado (ou de quem quer que seja) sobre o indivíduo seja cada dia mais eficaz.
Agentes de presídios dos Estados Unidos estão testando câmeras de segurança com um software capaz de identificar comportamentos que antecedem uma rebelião de presos ou briga de gangues, segundo o jornal The New York Times. As câmeras enviam as imagens a um programa de inteligência artificial que analisa os rostos, gestos e ações. Quando o equipamento identifica um padrão de comportamento que normalmente antecede brigas, ela dá um alerta aos guardas para que tentem acalmar os ânimos dos prisioneiros. O sistema faria o mesmo trabalho dos vigias das prisões, mas não tem descanso, não se distrai na hora do café e liberaria os funcionários para outras atividades.

A inteligência artificial interpretando as ações humanas também pode ser usada em hospitais. A General Electric desenvolveu um sistema de câmeras que poderia, por exemplo, monitorar pacientes e ainda alertar funcionários que se esqueceram de lavar as mãos.

E não pense que estas tecnologias estão muito distantes de você. Na casa de milhares de pessoas já existe um aparelho que entende seus movimentos. O Kinect, sensor de movimentos criado pela Microsoft para o game Xbox, já "lê" os movimentos do corpo do jogador e passa as informações para dentro da máquina. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Espionagem baratinha

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Imagine ai. Você chama um colega de trabalho para uma festa. O cara está deprimido. Você enche ele de cachaça. Depois começa uma conversa que faz com que ele se declare homossexual. E você teve a oportunidade de gravar tudo com o relógio/câmera que você comprou baratinho numa dessas lojas virtuais na Internet. Agora você vai poder sacanear o colega em seu local de trabalho. Maravilha, né ? Olha o reloginho ai embaixo na foto.
Imagine mais um pouquinho. Você está indo conversar com o seu chefe. Aquele que você odeia. Aquele que lhe humilha. Que lhe ofende todos os dias. E que lhe paga uma migalha. Vai participar de uma reunião com ele e com outros diretores da fábrica. E vai ter a chance de vê-lo abordando os problemas que a fábrica poderia ter com o Ministério Público se alguns pormenores da produção fossem descobertos. Você resolve levar uma canetinha de bolso, que grava vídeo e áudio. Bacaninha. Vai ser sua vingança. A canetinha é barata e não se diferencia em nada de uma comum. Olha a foto de uma ai embaixo.


Vamos continuar imaginando mais um pouquinho. Agora você todo desconfiado de sua esposa, ou de seu marido, resolve saber com certeza se ela vai mesmo ao dentista, toda quarta-feira a tarde. Vai contratar um detetive ? Coisa antiga. Você compra um mini-rastreador GPS. Coloca dentro do carro, sem que ela/ele desconfie. Ai, é só fazer as conexões necessárias e seu celular ou seu computador pessoal se tornarão sua ferramenta diária de controle de sua esposa /marido. Olha como o negocinho funciona na figura abaixo.


Ummm... mundinho cheio de possibilidades, não é ? E então ? Era esse mundo "utópico" que você imaginava quando era criança, assistindo a algum daqueles filmes de ficção científica com histórias de Isaac Asimov, ou de Ray Bradbury ?

Vai pensando ai. E até domingo que vem.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Nada a temer ?

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Nem sempre é possível se pensar apenas positivamente no começo de um ano. O que seria da vida se não fossem os pessimismos ? Como perceberíamos que as coisas não vão bem, se olhássemos o mundo como se apenas existissem flores, cores e alegria ?

Infelizmente, o otimismo vem entranhado de um boa dose de alienação e manipulação.

Nos dias de fim de ano o Jornal Nacional, por exemplo, nos mostrou como a população do Rio de Janeiro deve ficar feliz a partir de agora, pois já há um sistema de controle da cidade, comparado ao de cidades do Primeiro Mundo. A partir de uma grande sala, já é possível controlar, com uso de câmeras e outras formas de monitoramento, toda a cidade carioca. Eufemismos.

Jornalismo e Publicidade dando tons coloridos ao cinza do Controle Social.

Normalmente tomamos contato com as possibilidades distópicas (o contrário de utópicas) com os artistas. Aquelas mentes que flutuam do presente em direção ao futuro, tentando prever onde chegaremos se nos mantivermos no mesmo caminho.

O vídeo a seguir nos adverte de um possível futuro. Mas esse futuro não é, absolutamente, inevitável.


By Simon Russell
simonrussell.blogspot.com

O vídeo encontra-se no endereço seguinte:
http://www.vimeo.com/17593192

domingo, 26 de dezembro de 2010

Saiu na SUPER...

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A Revista Superinteressante na sua edição verde, de Dezembro, vem com duas informações sobre vigilância que nos interessam de verdade.
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Uma delas é aquela em que se fala de um Site que "permite que qualquer pessoa vigie câmeras de segurança pela Internet - e ganhe até R$ 2.600 se denunciar um crime".

Abaixo transcrevo um trecho da notícia:
Toda grande loja ou supermercado está cheio de câmeras de vigilância. Só que os seguranças, por cansaço ou distração, nem sempre conseguem detectar os furtos. Então que tal transformar essa tarefa numa espécie de gincana virtual? É a proposta do Internet Eyes (interneteyes.co.uk), um site que acaba de ser aberto na Inglaterra e permite que qualquer pessoa vigie as câmeras de diversas lojas e empresas. O usuário precisa se cadastrar (podem participar pessoas de todos os países da União Europeia) e pagar uma taxa mensal equivalente a R$ 5. Feito isso, basta se logar no site, que exibe as imagens de 4 câmeras de cada vez. Os nomes e endereços das lojas não são identificados. A pessoa fica vigiando as câmeras pelo tempo que quiser. Se perceber algo suspeito,  clica num botão - e um alerta imediato é enviado, via SMS, para o dono do estabelecimento comercial. A cada mês, o usuário que tiver detectado mais furtos ganha R$ 2.600. Já quem passar trotes é expulso do site.
Uma das evidências que normalmente se busca para "provar" a existência de uma Sociedade de Controle  entre nós é, justamente, um Poder em Rede. Diferentemente da Sociedade Disciplinar (Sec.18 ao Sec. 20) onde o vigiado seria individualizado, preso dentro de uma cela, por exemplo, no Poder em Rede, os vigiados estariam dispersos espacialmente, tal como nós conectados de uma rede computacional. Assim, "o diagrama em rede permite e estimula a comunicação lateral entre esses nós, de forma que eles mesmos forneçam informações e alimentem o banco de dados". Essa é a ideia de Marco Vinício Zimmer, autor da Tese de Doutorado: O Panóptico está Superado ? Estudo Etnográfico sobre a Vigilância Eletrônica.

Dessa forma, ratificando as ideias de Gilles Deleuze, o autor da Tese reforça que o controle deixa de ter sua origem em apenas um lugar central. A vigilância, a partir da aparição da Sociedade de Controle, emanará de todos os lugares, "como uma rede, sem começo, meio ou fim".

A outra matéria da SUPER é abordando um pouco da velha agonia do governo norte-americano para vigiar a Internet. 

É que um novo projeto de lei está no Congresso dos EUA e prevê o monitoramento de sites e serviços da rede mundial. Obviamente está meio mundo de olho, e reclama da possível regulamentação como contrária a liberdade de expressão, mas o governo de Obama, claro, adverte que a lei é para a proteção da população e contra terroristas apenas.

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A Tese de Marco Zimmer pode ser encontrada no endereço a seguir:


As matérias da Superinteressante só podem ser lidas integralmente na própria revista em papel. Pelo menos neste mês de publicação. Com o tempo as matérias vão sendo disponibilizadas no Site específico.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Controle que vem da Tela

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Olá, nobre visitante,

Hoje foi um dia bem puxado. Só consegui abrir o blog agora (23:15 h) para atualizá-lo.

Como não quero perder o padrão de atualização (quartas e domingos) encontrei um texto que escrevi há alguns anos em um boletim chamado Mídia Rebelde, produzido por um grupo de amigos e colegas da faculdade de jornalismo, e faço a postagem dele hoje aqui.

Espero que gostem. E até o próximo domingo.

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MUITO ALÉM DOS TELEJORNAIS


Por que os telejornais, de uma maneira geral, são tão parecidos, tanto na forma, quanto no conteúdo?

Se fizermos uma amostragem diária daqueles jornais podemos perceber, por exemplo, que poucas notícias e abordagens dos fatos do dia se diferenciam umas das outras. Temos assim a impressão de que a importância dos acontecimentos (e sua transformação em notícia) têm igual valor para todos os canais. Ou melhor esclarecendo, percebe-se que todos os canais de TV tem visões de mundo bastante parecidas, e assim pretendem repassá-la aos telespectadores.

Se no conteúdo as coisas são assim, na questão de formato as semelhanças são mais aviltantes. Todos os jornais têm seus blocos delineados de uma mesma forma, com as notícias sendo passadas rápida e superficialmente.

Esse modelo é tão sistêmico que podemos encontrar, por exemplo, no Manual de Assessoria da Câmara Federal a informação de que para um jornal de TV é “necessário” ao jornalista ser o mais “claro e conciso” possível, não sendo correto que o mesmo externe suas opiniões. Seguindo este procedimento padrão os telejornais têm dentro de seus blocos notícias de parcos 2 minutos, no máximo. Dentro de amostragem efetuada, em determinados dias, a média de tempo das notícias pode chegar a apenas 1 minuto!

Alguns especialistas da área de comunicação criticam violentamente este modelo de jornalismo. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, no livro Sobre a Televisão, publicado no Brasil, criticou e atacou os jornalistas franceses por defenderem e aplicarem aquela visão de comunicação, fenômeno chamado por ele de “fast thinking”, o qual, segundo o próprio Bourdieu, faz com que os telespectadores se acostumem a receber informações sempre em blocos, rápida e descontextualizadamente, perdendo assim a capacidade de compreender os acontecimentos como elementos de um elo maior, e vendo a vida cada dia mais como apenas um “espetáculo” com fatos soltos e dispersos.

Em Salvador, se assistirmos ao Bahia Meio-Dia, Jornal da Manhã, Aratu Notícias, Página 1, entre outros, veremos que se diferenciam apenas pela qualidade técnica. Alguns pelo colorido mais bonito, ou pelas imagens sem riscos e sombras. Alguns deles com apresentadores impecáveis (com direito à maquiagem e tudo mais), até com ternos alugados de boas lojas. Câmeras digitais, som estéreo, etc...

Porém, e infelizmente, todos com o mesmo tratamento superficial e pobre dado às notícias, talvez com medo de que o espectador inicie, a partir de abordagens mais refinadas, um processo de reflexão, e se mobilize, em busca de mudanças muito além da TV.

Texto publicado em Mídia Rebelde, Março de 2006

domingo, 12 de dezembro de 2010

Resenha: Discurso da Servidão Voluntária

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Há alguns posts atrás algum de nossos visitantes comentou sobre o livro Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie. Pedi a um dos nossos mais assíduos colaboradores (comentando em nossas postagens) que fizesse uma resenha sobre o livro, e ele aceitou a sugestão. Hoje trazemos aqui essa colaboração feita com exclusividade para este blog.

Vejam ai. E até a Quarta-Feira que vem.

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El Brujo
Os séculos XV e XVI são marcados pela expansão territorial; novas fronteiras são abertas e surgem novos ‘povos’ com perfis civilizatórios que colocam em xeque o modo de vida do mundo dito conhecido.
O mundo ocidental e a sua busca incansável pela autoridade referendada sempre no UM; seja ele o deus monoteista na religião, seja o estado absolutista na ciência política e/ ou a escritura como a única verdade crível no mundo do conhecimento (só vale o que está escrito, seja na lei secular, na fé ou na ciência).
Indo um pouco mais além, podemos afirmar que esses ‘mundos’ ao entreolharem-se se declararam – logo de imediato – como inconciliáveis e antagônicos nos seus desenvolvimentos civilizatórios...
Nesse instante o choque civilizatório se fez presente e perdurou pela opressão dos mercadores de especiarias (temperos aromáticos), sedas, chás, alucinógenos, metais e cristais preciosos etc.

Visto que a autoridade – tão querida aos ocidentais – não se permitia ao luxo do convívio com a liberdade sem adjetivações; fortalecendo, por isso, a ingerência protetora da lei, da fé e ou da ciência nas relações societárias.
Étienne de La Boétie (1º. de novembro de 1530 — 18 de agosto de 1563) escreve, entre os 16 ou 18 anos, seu panfleto/ ensaio sobre o ‘discurso da servidão voluntária’.

E nele tenta encontrar respostas para a questão da submissão a que o homem ocidental se submetia cega e voluntariamente, e que dessa submissão retirava para si prazeres e regozijos como súditos do rei, da lei e de deus.

Como nos esclarece La Boétie:

“Da razão que nasce conosco ou não, o que é uma questão debatida a fundo pelos acadêmicos e abordada por toda a escola dos filósofos, por ora não pensaria falhar ao dizer o seguinte:
há em nossa alma alguma semente natural de razão que, mantida por bom conselho e costume, floresce em virtude e, ao contrário, freqüentemente sufocada, aborta, não podendo enfrentar os vícios sobrevindos.”

Faz-se necessário, portanto, interrogarmos por que se aceitar prestimosamente a dominação do UM (deus, rei e/ ou a lei) contra todos (indivíduo ou coletivo)?

Visto que, nas palavras de La Boétie,

"É natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá"

Isso se dá, portanto, através da negação/ servidão do indivíduo pela educação que lhe é imposta, que passa a comungar, idolatrar e referendar a concentração do poder político e, também, o financeiro nas mãos de alguns poucos.

E esses poucos beneficiários do poder concentrado tomam para si, como uso restrito, a função tecnológica de governamentalidade, isso através da normalização das relações de poder entre a autoridade constituída e a sociedade, e desta consigo mesma:

organizar, administrar e, portanto, dominar – disciplinar e controlar – a sociedade; perpetuando esta forma de exploração ad infinitum.

É premente que tentemos, como afirma o cientista político Edson Passetti (PUC - São Paulo), “...compreender o mal imanente à autoridade e recuperar a confiança na liberdade.”

Liberdade esta sem os adjetivos limitadores de sua expressão máxima, como nos indica o pensamento político do jovem estudante francês, La Boétie:

"Decidi-vos a não servir mais, e serei livres."
O autor da resenha é também editor do blog  O Homem Revoltado.   

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Leviatã Perfeito

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Em meados do Século XVII o filósofo Thomas Hobbes escreve O Leviatã. Ali ele deixa clara a necessidade de um controle sobre os indivíduos por uma organização para que a “civilização” possa continuar viva. O Leviatã, monstro bíblico, que atormentava os navegantes, se transforma na organização que obriga todos a cumprirem um contrato social: O Estado.

Assim o soberano controlará os indivíduos para que não ajam além de suas possibilidades, acima do que, no final das contas, o próprio Estado considere incorreto, ilegal, imoral.

Em finais do Século XVIII, o anarquista William Godwin lamentava e alertava sobre a forma como o Estado estava cada vez mais se acercando da educação dos indivíduos. Obviamente, fazendo-os acreditar nas mesmas visões e ideias daqueles que constituiam e comandavam o Estado. Uniformizando cada vez mais o que se consideraria incorreto, ilegal e imoral.

O Soberano, que detinha o poder do Estado, manipulava, obrigava, torturava, e assassinava, em nome de um Contrato Social. Este Contrato foi com o tempo se transformando. E, com um poder sempre crescendo, o Estado saia da coerção, para a cooptação.

Um exemplo bem claro disso é a mudança de compreensão com relação às lutas do trabalhador. O que antes era considerado caso de polícia, como as greves dos primeiros anos do Século XX, no Brasil, se transforma em fortalecimento do colaboracionismo entre classes a partir da Revolução de 30, de Getúlio Vargas.

Vargas, e seu séquito, criam uma legislação que enfraquece os sindicatos autônomos, a partir da ideia dos Sindicatos Únicos, ligados ao Ministério do Trabalho, convergindo para uma verdadeira domesticação dos trabalhadores. Os poucos que se opuseram a esta operação de fortalecimento do controle estatal sobre os sindicatos, anarquistas entre eles, foram, pouco a pouco, reprimidos, presos ou deportados, no caso dos estrangeiros.

É claro, não nos esqueçamos, que este tipo de paz, onde o Estado consegue manter cada um em seu “verdadeiro” lugar na pirâmide de classes, funciona com a necessidade de ações violentas de tempos em tempos. A disciplina social é conseguida através de domesticação ideológica, ou de uma vigilância sistemática, mas quando necessário os tanques podem ir às ruas. E as prisões podem se encher mais ainda.

Mas alguns indícios de que é cada vez menos necessário o investimento em violência, para manter os indivíduos quietos, estão no ar.

Acho que são aqueles indícios que fizeram com que Gilles Deleuze entendesse que estávamos entrando nos anos 90 no que ele chamou de Sociedade de Controle. Nessa sociedade o controle é tão profundo, desde as raízes das movimentações sociais até a macro-economia, por exemplo, que mesmo aparentemente vivendo em um mundo repleto de opções estaríamos mesmo num fluxo tão veloz e direcionado que quase não temos chance de sair desse fluxo, se desejássemos isso.

“Que músicas chatas, professor”, foi o clamor geral dentro de uma sala de aula no ano de 2003, quando eu apresentei, aos jovens estudantes da Escola Estadual Georgina Ramos, no bairro da Boca do Rio, em Salvador, as músicas e letras de muitos compositores criadas durante a luta contra a Ditadura implantada pelo militares em 1964: Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré...

É isso. Mesmo músicas como as de Titãs, Plebe Rude, dentre outras também gravadas em um CD que levei para a sala não foram muito bem recebidas. Semana passada o repórter do Programa Profissão Repórter perguntou a uma menininha, filha de umas das personagens da ocupação de um prédio no centro da cidade de São Paulo, sobre os cantores que ela gostava, e ela respondeu sem demora: Justin Bieber e Luan Santana...

Esta semana que passou muita gente congratulava a ocupação militar do Morro do Alemão. Poucas ou nenhuma voz de oposição. É tempo de controle a partir da necessidade da segurança, para nossa própria proteção.

Indícios, apenas, da existência da Sociedade de Controle.

E nada melhor que um pouco de Plebe Rude para matar a saudade dos anos 80. Anos perdidos no tempo.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

O Pós-Panóptico chegou...

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Trago hoje para conhecimento de todos os que aqui navegam as ideias de Zygmunt Bauman sobre o Panóptico. Ou seja, sobre as mudanças que o Panóptico tem sofrido nestes tempos de Modernidade Líquida.

Foram transcritas as páginas 16, 17 e 18 da edição brasileira do livro de Bauman, publicado pela Zahar, em 2001.

O trecho é um pouquinho longo para um blog, mas achei que iria valer a pena tê-lo aqui neste espaço. Principalmente porque o autor não é daquele tipo de intelectual que parece não querer que as pessoas "normais" o compreendam.

Vamos lá, e até a próxima Quarta-Feira.

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Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham como arquimetáfora do poder moderno. No Panóptico, os internos estavam presos ao lugar e impedidos de qualquer movimento, confinados entre muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou bancadas. Eles não podiam se mover porque estavam sob vigilância; tinham que se ater aos lugares indicados sempre porque não sabiam, e nem tinham como saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se a vontade.

As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação; dos múltiplos laços de sua subordinação, a "fixação" dos internos ao lugar era o mais seguro e difícil de romper. O domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores — e imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito ao movimento e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em seu exercício do poder. A pirâmide do poder era feita de velocidade, de acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento.

O Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos entre os dois lados da relação de poder. As estratégias dos administradores, mantendo sua própria volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus subordinados, se tornavam uma só. Mas havia tensão entre as duas tarefas. A segunda tarefa punha limites à primeira — prendia os "rotinizadores" ao lugar dentro do qual os objetos da rotinização do tempo estavam confinados. Os rotinizadores não eram verdadeira e inteiramente livres para se mover: a opção "ausente" estava fora de questão em termos práticos.

O Panóptico apresenta também outras desvantagens. É uma estratégia cara: a conquista do espaço e sua manutenção, assim como a manutenção dos internos no espaço vigiado, abarcava ampla gama de tarefas administrativas custosas e complicadas. Havia os edifícios a erigir e manter em bom estado, os vigias profissionais a contratar e remunerar, a sobrevivência e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e cultivada.

Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto, responsabilizar-se pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de um interesse pessoal consciente — e a responsabilidade, outra vez, significa estar preso ao lugar. Ela requer presença, e engajamento, pelo menos como uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.

O que leva tantos a falar do "fim da história", da pós-modernidade, da "segunda modernidade" e da "sobremodernidade", ou a articular a intuição de uma mudança radical no arranjo do convívio humano e nas condições sociais sob as quais a política-vida é hoje levada, é o fato de que o longo esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu "limite natural". O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico — e assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais se reduziu à instantaneidade.


Em termos práticos, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo desacelerado, pela resistência do espaço (o advento do telefone celular serve bem como "golpe de misericórdia" simbólico na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais necessário para que uma ordem seja dada e cumprida.

Não importa mais onde está quem dá a ordem — a diferença entre "próximo" e "distante", ou entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de desaparecer). Isso dá aos detentores do poder uma oportunidade verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos irritantes e atrasados da técnica de poder do Panóptico.

O que quer que a história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez acima de tudo, pós-Panóptica. O que importava no Panóptico era que os encarregados "estivessem lá", próximos, na torre de controle. O que importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento — para a pura inacessibilidade.

O fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisionados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da ordem, e com a responsabilidade pelas conseqüências de tudo, bem como com a necessidade de arcar com os custos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Invasões, Invasões...

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Esses últimos dias tenho lido o livro Modernidade Líquida (2000) de Zygmunt Bauman. O autor, sociólogo polonês, faz ali uma grande viagem, tão pessimista quanto Giles Deleuze foi no começo dos anos 90, em torno de como nos encontramos, nós humanos, numa condição em que parece que as correntezas estão mais fortes do que nunca.

O que chamamos de correntezas nada mais são do que padrões sociais, cada vez mais homogêneos, e com poucas possibilidades de fuga do emaranhado formado. Para ele, confirmando os desejos de idealistas do Sec. XIX, os sólidos se desmancharam no ar, mas, para a infelicidade de muitos, sedimentou-se uma nova ordem, líquida, mas paradoxalmente, tão ou mais rígida que as ordens anteriores.

Podemos perceber o quanto Bauman considera rígidas as novas "leis" sociais desde o começo do livro. Didaticamente ele afirma que "se o tempo das revoluções sistêmicas passou, é porque não há edifícios que alojem as mesas de controle do sistema, que poderiam ser atacados e capturados pelos revolucionários".
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Assim dentre os sólidos que se desejariam derreter neste momento não estariam incluídos o cada vez maior individualismo, a uniformização cultural, e o endeusamento cada vez maior da mercadoria, somente como exemplos.

Caco Barcelos em seu programa semanal da Rede Globo na última Terça-Feira (30 de Novembro) me fez repensar sobre aquelas ideias de Bauman. Na reportagem os "novos" jornalistas do programa Profissão Repórter da Globo fazem uma inserção completa sobre os dias finais da ocupação de um prédio, antigo hotel, no centro da cidade de São Paulo, na bem conhecida, de muitos brasileiros, Avenida Ipiranga, graças a música de Caetano Veloso.

É possível se ver dentro da reportagem elementos que tanto reforçam quanto podem refutar as teorias do sociólogo polonês. A própria reportagem, por exemplo, pode representar uma brecha de resistência a homogeinização quase absurda que impera no jornalismo aqui no Brasil (vide as reportagens do último final de semana sobre a "Guerra contra o Tráfico" no Rio de Janeiro).

Ver o corre-corre dos repórteres junto com membros da comunidade criada com a ocupação, desde a madrugada, quando se procurava comida nas feiras, passando pelo périplo de adultos e crianças, uns em direção às escolas e outros às filas de emprego, e chegando ao final, observando o rosto entristecido do repórter no momento da invasão policial no prédio (chamada eufemisticamente de desocupação, ou reintegração de posse), me fizeram ter esperança em um jornalismo positivo (não lembrei de outro termo para qualificar um jornalismo desse tipo).

Espero que o trecho da reportagem (ela completa se encontra no portal da Globo.com) que coloquei ai em cima na postagem de hoje faça com que aqueles que navegam por este blog também reflitam sobre o que se deseja para o mundo e para as pessoas que nele residem. E quem sabe os versos de Caetano também ajudem nessa reflexão:

"Alguma coisa acontece
No meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga
E a Avenida São João...".

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Homem-Massa de Cada Dia...

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Não são poucos os filósofos que se agarram a ideia de que o advento de um tal Homem-Massa trouxe, paralelamente, a perspectiva de uma decadência cultural, justamente pela construção de uma “ditadura da massificação”.

Com boas exceções. Walter Benjamin afirmava ser um instrumento democrático a possibilidade de se copiar as imagens das obras de artes que antes da fotografia, por exemplo, só eram vistas em museus europeus, por classes privilegiadas.

Ao contrário, Ortega y Gasset, por exemplo, que criou o conceito do Homem-Massa “fornece um importante aparato intelectual para compreendermos de que maneira vivemos sob a égide moralista do nivelamento humano, e de que forma nossa criação cultural se submeteu a tais parâmetros normativos motivando, assim, nada mais do que o empobrecimento existencial e a legitimação do grotesco”.

Esta visão acima é do autor do artigo O Advento do Homem-Massa, Renato Nunes Bittencourt, na Revista Filosofia, Nº 52, da Editora Escala, analisando as ideias do filósofo espanhol, José Ortega y Gasset.

O que me vem logo a cabeça num debate deste tema da cultura é a Carla Perez dançando na boquinha da garrafa, e ao fundo a música “É o Tchan” sendo tocada. Nada mais “grotesco” para iluministas, cheios de razão, que deploram o que não é “belo” e “sublime”, ou seja, o que “dilui todo destaque pessoal, todo brilho singular”.

Com análises parecidas Theodor Adorno critica a Indústria Cultural que seria construída a partir do conceito de cultura como simples mercadoria. E como mercadoria, dentro do âmbito do capitalismo, não seria priorizado “o florescimento autêntico da vida cultural”.

Tenho uma certa simpatia por ambos os autores. Principalmente quando marcam suas posições contra um modelo de construção cultural que manipula ou coage as pessoas no intuito de simplesmente lucrar e continuar explorando aquelas mesmas pessoas que se tornam consumidores, deixando suas individualidades de lado.

Mas em determinados pontos de suas teorias, eles parecem ter, porém, um certo preconceito com o que podemos chamar de cultura popular. Talvez uma leve saudade do tempo em que ainda se considerava cultura e arte como sinônimos de eruditismo.

Infelizmente, um certo grau daquela arrogância iluminista está instalada nas universidades e faculdades do país. Muita gente ainda acredita com unhas e dentes na superioridade daqueles que têm o diploma de nível universitário. E acreditam nisso com uma naturalidade descarada.

E assim, se aproximam do velho sonho de Platão de ver nos governos apenas os sábios e filósofos. E, então a "gentalha" estaria sob controle total.

domingo, 21 de novembro de 2010

Tecnologia para quem ?

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Cansamos de ouvir odes da grande mídia para com a modernidade, e à tecnologia que a acompanha. Somos freqüentemente induzidos a substituir aparelhos eletrônicos, por exemplo, pelo simples motivo de suportar uma velocidade maior, ou tornar mais eficiente alguma operação rotineira. Não ouvimos, no entanto, nenhuma menção à própria tecnologia como parte de uma estratégia para manter o estágio de consumo a que se chegou a humanidade.

Creio que a tecnologia como conhecemos hoje não pode ser entendida como neutra, isto é, a tecnologia de hoje, criada e evoluindo em nome de uma classe específica, direcionada para a acumulação de capital daquela classe, não pode de maneira alguma ser a mesma usada por uma sociedade que se pretenda livre, de verdade.

Na realidade, considero que até a própria luz elétrica, por exemplo, como necessidade ou bem consumível é discutível para uma sociedade livre.

Vou tentar explicar minha visão sobre este tema em poucas linhas.

Quando se acende uma lâmpada, quando se abre o gás de fogão, ou ao ligar a televisão, estamos diante de um consumismo, que pode não parecer, mas é criado e difundido pelo próprio sistema capitalista-industrial, o qual explora através do capital, das instituições e da cultura burguesa, o trabalhador que hoje não consegue desatar as amarras deste sistema. A tecnologia entra na exploração da mesma forma que as outras armas do sistema contra o indivíduo (ou mais precisamente, o trabalhador). Ela é apenas mais uma das teias dentro da rede de exploração.

A evolução desta tecnologia capitalista pressupõe sempre mais controle social através da evolução administrativa.

Nessa evolução a divisão de trabalho pode até tornar-se menos visível, mas ainda está lá . Um homem aperta o parafuso, um junta letrinhas para um jornal, outro abre uma válvula, outros a desenham, alguns preparam apresentações em Powerpoint, todos sem a mínima idéia do conjunto total da produção. Desconhecendo, alienadamente, o motivo de suas ações.

A tecnologia que conhecemos hoje intensifica cada dia mais a heterogestão, espaço onde a hierarquia e a burocracia predominam. Não é difícil imaginar isto quando estamos todo dia trabalhando dentro de complexos industriais, bancos ou escolas (necessários para manter a lâmpada acesa em casa), mais parecidos com campos de concentração ou centros de lavagem cerebral (alimentados com ferramentas disciplinares, como as "chamadas", os panópticos, as quatro paredes dividindo-nos, etc.).

Em minha opinião, se queremos manter a luz acesa, o gás fluindo, a televisão ligada, etc., onde as relações de trabalho continuem as mesmas de hoje, teremos que nos arriscar a viver numa sociedade "livre" onde exista heterogestão em parte dela, o que seria paradoxal.

Se desejarmos viver em comunidades livres, realmente baseadas na AUTOGESTÃO, devemos encontrar novas instituições, novas formas de fazer cultura, novas técnicas.

Inclusive temos de discutir quanto a real necessidade de certos bens de consumo individuais que existem hoje e sobre os quais nos deliciamos sem analisarmos as conseqüências de sua existência. DVDs, geladeiras, automóveis, sapatinhos da Grendene, o ar-condicionado, e até mesmo a nossa velha e querida lâmpada.

Texto publicado no blog Mídia Rebelde em Fevereiro de 2008

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Privacidade e Cartografia Digital

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Cristiane Paião, da Revista ComCiência, entrevistou o pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e membro-fundador da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Rodrigo Firmino.

Escolhi duas questões, mais ligadas aos temas principais deste blog, e coloquei ai embaixo.

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ComCiência - Nos últimos meses diversos países vêm se mobilizando em relação à invasão de privacidade causada pelas fotos veiculadas no Google Street View. Na Europa, Estados Unidos, instalações militares, residências e até cidades pediram ao Google para que algumas imagens fossem removidas, além do fato de o serviço ter sido completamente banido na República Tcheca. Da mesma forma, o Map World chinês também restringe o acesso às imagens em determinadas áreas, de acordo com seus interesses. Taiwan, que a China define como província traidora, não pode ser vista na mesma resolução que a China continental. Como trabalhar com a confiabilidade dos dados diante desse quadro?

Firmino – Até onde eu conheço o sistema e essas discussões sobre segredos militares ou invasão de privacidade, não deve haver problema com relação à confiabilidade das imagens disponibilizadas, já que, em tese, as imagens não são "alteradas", mas há a exclusão de imagens sensíveis ou de interesse específico. É bem claro que sistemas e aplicativos que envolvam informações sensíveis – com discussões transferidas diretamente para os níveis aceitáveis de invasão de privacidade pessoal e coletiva, ou ainda de interesse governamental ou militar –, envolvem questões de ordem política, econômica e cultural.

Entretanto, o caminho até a disponibilização desses dados e informações é uma outra história e sempre corre-se o risco de uma série de pedidos comerciais e judiciais de bloqueio de informações e, isto sim, pode comprometer o uso desses aplicativos, se acontecer em larga escala, o que acho possível, porém improvável. Por outro lado, as discussões em torno da privacidade são importantes e devem ser colocadas à mesa, para que seja possível debater quais são os limites aceitáveis econômica, política, social e culturalmente desse equilíbrio entre o controle de informações – governamental e comercialmente – e a privacidade de grupos e indivíduos.

ComCiência - Como a sociedade está reagindo a essas novas formas de se relacionar com o espaço e a privacidade, como no caso do Street View, por exemplo, em que pessoas são literalmente representadas e inseridas no mapa cartográfico?

Firmino – Essas questões são fundamentais e devem ser mais bem discutidas. Infelizmente, não estamos fazendo isso no momento, a não ser em círculos restritos, acadêmicos e institucionais. A população não tem sido chamada para essa discussão, principalmente no Brasil.

Ainda assim, avanços importantes começam a aparecer, como no caso da construção do novo marco civil da internet no Brasil, aberto à consulta pública e debatido por vários indivíduos e grupos interessados na liberdade civil. Esse foi um momento muito importante e produtivo, pois profissionais de diversas áreas puderam dar sua opinião em trechos específicos do texto, defendendo a liberdade de expressão e o uso da internet em vários aspectos, e garantindo o direito da privacidade em várias instâncias na regulação do uso da internet. Resta saber como isso será absorvido e aproveitado institucionalmente até tornar-se efetivo. Esse é o caminho a ser perseguido, o da discussão aberta, da participação e da colaboração.

Ainda discutimos pouco, especialmente no que diz respeito ao uso cada vez mais intensivo de tecnologias de informação e comunicação no controle e vigilância de grupos, indivíduos e espaços. No Brasil há uma tendência em imputar aos sistemas tecnológicos a responsabilidade de correção e resolução de problemas que na verdade têm outra ordem. Não são técnicos, mas sociais, políticos e econômicos. O caso do Google e seus dispositivos entram certamente no contexto mais amplo de todos esses meus argumentos sobre as discussões e preocupações com a privacidade no Brasil, ou seja, é um tema que não é debatido como deveria.