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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tecnopolítica e Anarquismo

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"Tecnopolítica e Anarquismo" 

19/02 - Sábado, 14h!

Cada vez mais utilizamos as novas tecnologias para nos comunicar, mas
 que acontece quando usamos ferramentas criadas e administradas por
grandes empresas? Você sabia que o YouTube passa a ser dono dos vídeos
que você publica lá? Que o Gmail passa seus dados privados para a
polícia, caso seja solicitado? Que o Facebook pode apagar a tua conta
e os teus contatos se descobre que você não usou seu nome verdadeiro
ou que usa a sua conta com fins politicos?


Venha discutir estas questões e conhecer que alternativas temos, este
sábado dia 19/02, as 14h, na Biblioteca Social Fábio Luz.

Rua Torres Homem 790 - Vila Isabel
Perto do final do Boulevard 28 de Setembro e da Escola de Samba Vila Isabel
Rio de Janeiro - RJ

# ônibus: 232, 433, 222, 438, 638, 269
# metrô: integração Vila Isabel
# trem: estação Maracanã e descer até o final da 28 de Setembro

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Espionagem baratinha

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Imagine ai. Você chama um colega de trabalho para uma festa. O cara está deprimido. Você enche ele de cachaça. Depois começa uma conversa que faz com que ele se declare homossexual. E você teve a oportunidade de gravar tudo com o relógio/câmera que você comprou baratinho numa dessas lojas virtuais na Internet. Agora você vai poder sacanear o colega em seu local de trabalho. Maravilha, né ? Olha o reloginho ai embaixo na foto.
Imagine mais um pouquinho. Você está indo conversar com o seu chefe. Aquele que você odeia. Aquele que lhe humilha. Que lhe ofende todos os dias. E que lhe paga uma migalha. Vai participar de uma reunião com ele e com outros diretores da fábrica. E vai ter a chance de vê-lo abordando os problemas que a fábrica poderia ter com o Ministério Público se alguns pormenores da produção fossem descobertos. Você resolve levar uma canetinha de bolso, que grava vídeo e áudio. Bacaninha. Vai ser sua vingança. A canetinha é barata e não se diferencia em nada de uma comum. Olha a foto de uma ai embaixo.


Vamos continuar imaginando mais um pouquinho. Agora você todo desconfiado de sua esposa, ou de seu marido, resolve saber com certeza se ela vai mesmo ao dentista, toda quarta-feira a tarde. Vai contratar um detetive ? Coisa antiga. Você compra um mini-rastreador GPS. Coloca dentro do carro, sem que ela/ele desconfie. Ai, é só fazer as conexões necessárias e seu celular ou seu computador pessoal se tornarão sua ferramenta diária de controle de sua esposa /marido. Olha como o negocinho funciona na figura abaixo.


Ummm... mundinho cheio de possibilidades, não é ? E então ? Era esse mundo "utópico" que você imaginava quando era criança, assistindo a algum daqueles filmes de ficção científica com histórias de Isaac Asimov, ou de Ray Bradbury ?

Vai pensando ai. E até domingo que vem.

domingo, 28 de novembro de 2010

A Moda contra o Raio-x Indiscreto

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Quando a TSA (Transportation Security Administration) anunciou a instalação de mais de 400 scanners corporais em 60 aeroportos dos Estados Unidos, houve uma onda de protestos a favor da privacidade. Agora, começam a surgir as mais diversas criações de vestuário que prometem resolver, em forma de protesto, o problema dos usuários, provando que a moda pode se adaptar a qualquer situação.
Rocky Flats Gear anunciou em seu site roupas íntimas com estampa metálica, feita de tungstênio, em formato de folha, que protege e se adapta ao corpo. A novidade abrange peças tanto para homens quanto para mulheres.
Já a 4th Amendment Underwear traz modelos de camisetas, roupas íntimas e meias, com um pequeno texto escrito em uma espécie de liga metálica, que visa o protesto silencioso, uma vez que houve incidentes com usuários nos aeroportos. Neste mesmo conceito estão as camisetas "Land of the Free?", que trazem a imagem da Estátua da Liberdade sob o efeito do raio-x.

Porém, a revolta vai além do vestuário: ativistas marcaram para o dia 1 de dezembro, próxima quarta-feira, o Dia Nacional da Abstenção, que se opõe a obrigatoriedade da prática de escaneamento.

domingo, 21 de novembro de 2010

Tecnologia para quem ?

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Cansamos de ouvir odes da grande mídia para com a modernidade, e à tecnologia que a acompanha. Somos freqüentemente induzidos a substituir aparelhos eletrônicos, por exemplo, pelo simples motivo de suportar uma velocidade maior, ou tornar mais eficiente alguma operação rotineira. Não ouvimos, no entanto, nenhuma menção à própria tecnologia como parte de uma estratégia para manter o estágio de consumo a que se chegou a humanidade.

Creio que a tecnologia como conhecemos hoje não pode ser entendida como neutra, isto é, a tecnologia de hoje, criada e evoluindo em nome de uma classe específica, direcionada para a acumulação de capital daquela classe, não pode de maneira alguma ser a mesma usada por uma sociedade que se pretenda livre, de verdade.

Na realidade, considero que até a própria luz elétrica, por exemplo, como necessidade ou bem consumível é discutível para uma sociedade livre.

Vou tentar explicar minha visão sobre este tema em poucas linhas.

Quando se acende uma lâmpada, quando se abre o gás de fogão, ou ao ligar a televisão, estamos diante de um consumismo, que pode não parecer, mas é criado e difundido pelo próprio sistema capitalista-industrial, o qual explora através do capital, das instituições e da cultura burguesa, o trabalhador que hoje não consegue desatar as amarras deste sistema. A tecnologia entra na exploração da mesma forma que as outras armas do sistema contra o indivíduo (ou mais precisamente, o trabalhador). Ela é apenas mais uma das teias dentro da rede de exploração.

A evolução desta tecnologia capitalista pressupõe sempre mais controle social através da evolução administrativa.

Nessa evolução a divisão de trabalho pode até tornar-se menos visível, mas ainda está lá . Um homem aperta o parafuso, um junta letrinhas para um jornal, outro abre uma válvula, outros a desenham, alguns preparam apresentações em Powerpoint, todos sem a mínima idéia do conjunto total da produção. Desconhecendo, alienadamente, o motivo de suas ações.

A tecnologia que conhecemos hoje intensifica cada dia mais a heterogestão, espaço onde a hierarquia e a burocracia predominam. Não é difícil imaginar isto quando estamos todo dia trabalhando dentro de complexos industriais, bancos ou escolas (necessários para manter a lâmpada acesa em casa), mais parecidos com campos de concentração ou centros de lavagem cerebral (alimentados com ferramentas disciplinares, como as "chamadas", os panópticos, as quatro paredes dividindo-nos, etc.).

Em minha opinião, se queremos manter a luz acesa, o gás fluindo, a televisão ligada, etc., onde as relações de trabalho continuem as mesmas de hoje, teremos que nos arriscar a viver numa sociedade "livre" onde exista heterogestão em parte dela, o que seria paradoxal.

Se desejarmos viver em comunidades livres, realmente baseadas na AUTOGESTÃO, devemos encontrar novas instituições, novas formas de fazer cultura, novas técnicas.

Inclusive temos de discutir quanto a real necessidade de certos bens de consumo individuais que existem hoje e sobre os quais nos deliciamos sem analisarmos as conseqüências de sua existência. DVDs, geladeiras, automóveis, sapatinhos da Grendene, o ar-condicionado, e até mesmo a nossa velha e querida lâmpada.

Texto publicado no blog Mídia Rebelde em Fevereiro de 2008

domingo, 10 de outubro de 2010

Foucault e a Sociedade Disciplinar

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Na última sexta-feira (08/10/2010) tive um encontro com a professora Heliana Conde. Ela é Doutora em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo (USP), e hoje ensina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), localizada no bairro do Maracanã. Ali, no Instituto de Psicologia, foi onde ocorreu o encontro e uma entrevista foi realizada, a respeito de suas pesquisas sobre Michel Foucault.

A seguir posto a primeira questão feita a ela e sua resposta em vídeo.

Até Quarta-Feira, com a continuação da entrevista.

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1 – Acerca do seu artigo Cartografias Minoritárias do Enclausuramento, no Livro coletânea Cartografias de Foucault (Editora Autêntica).

Você diz no texto (pg. 152) que passeia de bicicleta por Vigiar e Punir (com direito inclusive a boas risadas). E logo de início, deixando clara sua paixão por Foucault, você se permite caracterizar o livro dele a partir de três fragmentos:

  • [O poder disciplinar] adestra as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais – pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios.
  • A multidão, massa compacta, local de múltiplas trocas, indivíduos que se fundem, efeito coletivo, é abolida em proveito de uma coleção de indivíduos separados […] multiplicidade enumerável e controlável […] solidão sequestrada e olhada […].
  • A disciplina […] modela os comportamentos e faz os corpos entrarem em uma máquina, as forças numa economia.
Esses três fragmentos também ajudam a compreender o que acostumamos chamar de Sociedade Disciplinar ?

domingo, 15 de agosto de 2010

Memórias

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O texto abaixo é parte de artigo que
criei para a disciplina Jornalismo Online,
em Pós-Graduação Convergência Midiática
na Faculdade Social da Bahia (FSBA).

Os autores do livro "O Futuro da Memória: Total Recall" (que fala sobre a possibilidade de guardarmos tudo, literalmente tudo, que acontece com a gente a partir de uma Memória Integral, possível devido às novas tecnologias de gravação e armazenamento de informações) podem ser encaixados sem muita dificuldade entre os integrados de Umberto Eco. Dentro do próprio livro temos evidências dessa posição. Embora, dentro do texto, possamos encontrar um certo viés crítico, nos capítulos finais, ele é posto de uma forma tão tecnicista que se dissolve na envolvente retórica utilizada na sua construção.

Os autores vêm as falhas do sistema apenas como “bugs” que podem ser consertados, ou superados. Exemplificando como um dos “bugs” da Revolução Industrial a poluição. Se aqueles problemas não podem ser eliminados ou consertados, então devemos nos adaptar a eles.
Sou um tecnologista, e não um ludista. Portanto, deixarei discussões abstratas sobre se devemos nos voltar para o passado para outros. A Memória Integral é inevitável, independentemente dessas discussões.
Mesmo assim eles assumem e refletem sobre aqueles “bugs”. Como no caso de todas as nossas futuras “e-memories” se deteriorarem ou se perderem. A superação se daria da mesma forma que conseguimos construir backups de discos rígidos hoje. Seria desejável a existência de cópias de nossas memórias eletrônicas em servidores espalhados geograficamente. Ou seja, os dados sobre toda nossa vida estariam em rede, com links efetuados tanto de casa, quanto da escola, quanto do trabalho.

Aliás, falando nessas redes, esta seria outra questão que eles mesmos colocam com relação à Memória Integral. Existindo dados “nossos”, tanto em casa, quanto na empresa em que trabalhamos, por exemplo, a quem realmente pertenceriam as informações gravadas ? Isto é, a quem pertenceriam, por exemplo, “minhas” memórias “gravadas” na empresa onde trabalho em que estivessem entrelaçados assuntos referentes a meus projetos profissionais e minha vida pessoal ?

A este questionamento podem-se somar aqueles referentes ao fato de que estaremos sendo “gravados” por um emaranhado de câmeras e microfones, tanto de amigos, colegas de trabalho, quanto de desconhecidos. Os autores consideram essa situação também como irremediável e põem como opção a nossa adequação a “aprendermos” a ser gravados:
O mundo já está se adaptando a ser gravado... Então como nos adaptaremos a ser gravados ? Passaria a ser um vale-tudo ? Haverá leis restringindo essa prática ?

domingo, 1 de agosto de 2010

Por uma cultura remixada

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No ano passado durante uma das aulas na disciplina sobre Direitos Autorais, no Curso de Convergência Midiática, na FSBA, o professor Rodrigo Moraes trouxe para a turma um vídeo publicado no YouTube sobre como aqueles “direitos” têm sido atingidos pelas novas tecnologias de comunicação.

Lembro muito bem de um trecho do vídeo em que se discutia nos tribunais norte-americanos (e nas mídias clássicas) sobre a legalidade (legitimidade ??) ou não de um indivíduo se apropriar de segmentos de várias músicas, por exemplo, remixá-los e transformá-los em um “novo” produto.

As grandes gravadoras (tendo por trás as grandes redes de comunicação) estavam determinantemente contra aquilo que eles consideravam uma cópia, e algo que ia de encontro ao entendimento clássico do que seriam direitos autorais. Mas, em oposição às grandes corporações, surgiam novos personagens nas lutas dentro e fora dos tribunais: as redes sociais virtuais.

Na realidade, estavam por trás das redes os indivíduos e grupos de indivíduos que a partir daquelas ferramentas, existentes graças às novíssimas tecnologias de informação, se agrupavam em verdadeiras zonas autônomas transitórias. E ali, onde apareciam novos entendimentos de mundo, novas visões da sociedade, era construída uma espécie de cultura coletiva, a partir de interesses mútuos e novas socialidades.

A força dessas redes faz com que seus questionamentos e debates internos repercutam até mesmo nas grandes mídias (das grandes corporações a quem tantas vezes se opõem). Pelo mundo a fora essas redes têm possibilitado mobilizações em ações coletivas, de apoio e solidariedade (inclusive com intervenções em políticas públicas – por exemplo, no caso de Senador Republicano que seria o líder do Congresso Norte-Americano em 2003, caso um simples blogueiro não tivesse avaliado seu histórico racista nos anos 60, e tivesse jogado lama no ventilador).

Todo esse poder nasce na própria origem das proposições daqueles que constróem as redes no ciberespaço: Difusão de Culturas Emergentes, Trabalho Coletivo a Distância, Comunidades Temáticas (identitárias) e, principalmente, Liberdade de Emissão da Informação, com a consequente produção de conhecimento autônomo e, de certo ponto de vista, descontrolado.

Pode-se mesmo dizer que se forma uma nova economia da informação. Há na Internet dezenas de ferramentas (em muitos casos propriedades das mesmas grandes corporações que antes detinham o poder de informar sozinhas) que propiciam ao cidadão comum possibilidades de produção de conteúdo nunca vistas antes.

Mas aquelas ferramentas propiciam mais que isso. Elas potencializam a capacidade de colaboração, a partir de nós e teias, que se transformam em novas interligações modificando “substancialmente as funções de aquisição, armazenagem e disseminação da informação e do conhecimento” (Claudia Cunha Ribas).

O tripé econômico da Produção/Circulação/Consumo a partir dessas redes é reconfigurado e ressignificado pelos indivíduos, enquanto cidadãos, e não mais pelas empresas tradicionais. E, dessa forma, aquelas empresas têm de se “render” às redes sociais. E, quem sabe, se apropriar daqueles espaços.

Mas não uma apropriação aos moldes antigos. Uma apropriação não mais mono-lítica, uni-direcional, mas poli-lógica e multi-linear, onde se perceba os indivíduos não mais como receptores de uma seringa hipodérmica, sem reações conscientes.

Os indivíduos da era das redes sociais têm de ser agora entendidos mesmo como sujeitos, na sua definição aceita modernamente, como aqueles que são conscientes de seus pensamentos e responsáveis por suas ações.

Talvez, vendo o indivíduo dessa forma, os defensores de um Ancien Régime possam até mesmo compreender que novas mixagens são realmente novos produtos e que a Indústria Cultural não pode ser mais entendida como antes.

Produzi este texto como parte das avaliações feitas
pelo professor Claudio Manoel durante as aulas,
neste fim de semana,
na disciplina Assessoria de Comunicação na Era Multimídia,
do curso de Convergência Midiática da FSBA (Faculdade Social da Bahia).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pensando cada vez mais rápido

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Em 1995, o historiador Eric Hobsbawn, no seu livro Era dos Extremos, já criticava a tendência à superficialidade em um mundo atual tão repleto de informações. E, ao mesmo tempo, dava a receita para que as novas gerações pudessem religar suas vidas ao seu passado histórico.
A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores.
Pierre Bourdieu, sociólogo francês, já abordava um pouco antes de Hobsbawn o que nomeou de “fast-thinking”, nada mais, nada menos, que o processo ao qual um ser humano pretensamente normal (de acordo com os editores de jornais) tem de se acostumar vendo e ouvindo dezenas, ou centenas de novas notícias todo dia. Notícias descontextualizadas, e desconectas, com uma profundidade quase nula. Fatos cada vez mais superficiais, particularmente mostrados em TVs, para “facilitar” o entendimento daquele que é considerado o alvo da informação.

Já há estudiosos radicais que ligam ferramentas como o Google ou o Twitter a uma espécie de narcotização neurológica, a partir de uma sistemática distração do cérebro a partir de muita informação, com pouca densidade. Essas ferramentas, segundo Nicholas Carr, neutralizariam a capacidade de criação do ser humano fazendo com que deixemos “de ser cultivadores de conhecimento pessoal e a transformarmo-nos em caçadores e recolectores na floresta das informações eletrônicas”.

Não é difícil perceber certa verdade nessas afirmações para quem convive em escolas e faculdades, apenas como exemplo. Não é de forma alguma trabalhoso se conseguir uma série de exemplos de professores que tenham encontrado trabalhos copiados da Internet, em sua totalidade, por alunos, com base em pesquisas do Google e uma técnica conhecida como “copiar-colar”.

Aproveitando a citação do Google é importante notar que não é improvável também que neste momento uma nova espécie de Memória Integral já esteja sendo construída, a mercê dos indivíduos. E não se deve esquecer de que quando se fala em Google não é com referência a apenas a ferramenta de buscas gratuita, mas sim como empresa capitalista que tem como matéria prima e produto a informação. Esta possui uma infinidade de ferramentas: Busca de Textos, Mapas, GPS, Tradução, Hospedagem de Vídeos, servidor de e-mail, e tantas outras.

O Google Search, por exemplo, permite construir, a partir de dados compilados, perfis de consumo, a partir das pesquisas solicitadas diariamente por qualquer usuário. Os dados guardados não estão sob o controle de cada indivíduo a quem deveria “pertencer” as informações. Pedro Doria, em reportagem na Revista Galileu, deixa claro:
Na Googlelândia, a liberdade é plena, porém vigiada. A empresa registra tudo o que escrevem, o que fazem e o que compram os usuários. Mas o lema oficial da companhia é: “Não faça o mal”. De pronto, argumenta que, quando o sistema vasculha as mensagens do Gmail, por exemplo, é para oferecer a você as propagandas que mais possam interessá-lo.

domingo, 4 de julho de 2010

Sobre a Privacidade

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Vídeo de Thiago Magnus encontrado no Site do YouTube

Voltando um pouco a uma análise sobre os Totens Vigilantes, que estão sendo instalados na cidade de Salvador, é interessante deixar claro aqui em que se baseia o entendimento de privacidade de minha parte.

O jurista italiano Stefano Rodotà, já citado em um post por aqui, tem uma preocupação filosófica e ética, quando interroga se sobrará alguma dignidade a uma pessoa “tornada prisioneira de um passado que está todo nas mãos de outros”, quando critica o excessivo número de câmeras com suas lentes dirigidas aos cidadãos.

Neste sentido é interessante entender que as palavras de Rodotà fazem parte de um repertório discursivo determinado historicamente, no ocidente. A dignidade a que ele se refere é aquela refletida através do individualismo burguês, a partir de finais do Século XVII e princípios do Século XVIII.

Individualidade esta que se constrói a partir de elementos históricos concretos, como a diferenciação entre o público e o privado, por exemplo.

A postura moderna com relação a privacidade é mais uma proposição percebida a partir da história das mentalidades do que partindo-se de questões políticas ou sociais. Como, por exemplo, nas mudanças de atitude com relação ao corpo que vai se modificando no decorrer dos Séculos acima citados, conforme o historiador Philippe Ariès, na sua História da Vida Privada (Edt. Companhia das Letras):
Já não se trata de saber como um rapaz deve servir à mesa ou servir o patrão, e sim de estender ao redor do corpo um espaço preservado a fim de afastá-los de outros corpos, furtá-lo ao contato e ao olhar dos outros. Assim, as pessoas param de se abraçar, ou seja, de se jogar nos braços umas das outras, de beijar a mão, o pé, de se lançar 'de barriga no chão' perante uma dama que querem homenagear. Essas demonstrações veementes e patéticas são substituídas por gestos discretos e furtivos.
É esta mentalidade (direitos do cidadão, privacidade, individualismo) construída durante séculos que vai se dissipando com o uso incessante de dispositivos de vigilância.

domingo, 13 de junho de 2010

Lindsay e sua Tornozeleira

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Lindsay Lohan, atriz norte-americana, foi julgada em um tribunal de Los Angeles no último dia 24 de Maio e, por decisão judicial, terá que usar a tornozeleira até o mês de julho, quando voltará a acertar as contas com a justiça. A atriz está em liberdade condicional desde agosto de 2007, depois de admitir uso de drogas e ser pega dirigindo embriagada.

Com seu apetite exibicionista de sempre deixou sua tornozeleira à mostra nos bastidores de uma sessão de fotos, em Hollywood. A atriz, tirou os sapatos e relaxou em um sofá depois de fazer novas fotos para o livro "The Dirty Side of Glamor", do fotógrafo Tyler Shields.

Na Quarta-Feira falaremos um  pouco dessa mistura nem sempre glamourosa entre exibicionismo e vigilância.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Relatos acerca da Sociedade da Vigilância (2ª Parte)

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Hoje continuamos a mostrar os itens de Histórico e Definições no Relatório sobre Vigilância o qual já vimos no Domingo passado.

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1.5 - Quando o estado-nação estava em seu auge e os departamentos proliferaram, após a Segunda Guerra, os sistemas começaram a rachar e a ruir com a pressão. Mas o socorro estava a caminho, na forma dos novos sistemas computadorizados que reduziam a intensividade do trabalho e aumentavam a confiabilidade e o volume de trabalho que podia ser realizado. Com o tempo, e com os novos sistemas de comunicação, hoje conhecidos sob o grupo TI (Tecnologia da Informação), a administração burocrática poderia funcionar não só entre departamentos da mesma organização, mas também entre organizações diferentes e, eventualmente, de forma internacional. Algo muito parecido também se aplica aos negócios, que primeiro mantinham registros, depois estabeleceram redes e então se tornaram globais, por cortesia da TI. Essas atividades ‘combinadas’ se relacionam aos desejos modernos e técnicos por eficiência, velocidade, controle e coordenação.
1.6 - As práticas impessoais e centradas em regras deram origem à vigilância. A vigilância dos subordinados e a criação de registros no sistema são essenciais para a burocracia. As práticas de contabilidade de dupla entrada e do corte de custos e aumento dos lucros aceleraram e deram força a essa vigilância, que tinha impacto na vida operária e no consumo. E o crescimento dos departamentos militares e de polícia no século 20, impulsionado pelo rápido desenvolvimento de novas tecnologias, aprimorou as técnicas de coleta de informações, identificação e rastreamento. Mas a mensagem principal é a de que a vigilância cresce como parte do que é ser moderno.
E o Relatório a partir desse momento inicia o item O que há de errado com a sociedade da vigilância ?, servindo como um alerta para a sociedade atual onde os dispositivos de vigilância e controle começam a ser vistos de forma naturalizada, como se fossem as CCTVs, por exemplo, necessidades absolutas para a humanidade.
2.1 - Entender a sociedade da vigilância como um produto da modernidade nos ajuda a evitar duas armadilhas importantes: pensar na vigilância como um esquema maligno arquitetado por poderes perversos, e pensar que a vigilância é única e exclusivamente um produto das novas tecnologias (obviamente, os mais paranóicos veem essas duas coisas como uma só). Mas pôr a vigilância sob a perspectiva certa, como o resultado da burocracia e do desejo por eficiência, velocidade, controle e coordenação, não significa que esteja tudo bem. Só o que isso significa é que temos que ser cuidadosos ao identificar as questões principais, e vigilantes ao chamar a atenção para elas.
2.2 - A vigilância tem dois lados, e é preciso reconhecer seus benefícios. Por outro lado, riscos e perigos sempre se apresentam em sistemas de larga escala, e é claro que o poder corrompe ou ao menos deturpa a visão daqueles que o possuem.
2.3 - Vamos começar pelos riscos e perigos. Estamos mais acostumados a eles, já que no século passado se tornou pública a constatação de que o ‘progresso’ é uma benção dúbia. Todo aumento na produção de ‘benefícios’, como Ulrich Beck afirmou de forma sucinta, também implica em uma maior produção de ‘malefícios’.
2.4 - Além dos relacionados ao meio ambiente, que tinham lugar de destaque na concepção de Beck, alguns desses ‘malefícios’ são sociais e políticos. As infraestruturas tecnológicas de larga escala são especialmente propensas a problemas em larga escala. E nos sistemas computadorizados em particular, o pressionar acidental ou mal orientado de uma tecla pode facilmente causar uma grande confusão. Pense na liberação para fins de ‘pesquisa’ dos tópicos pesquisados online por vinte milhões de pessoas comuns por parte da AOL, em agosto de 2006. Supostamente não havia identificadores, mas em pouquíssimo tempo os registros de pesquisas começaram a ser conectados aos nomes. Este relatório lança um olhar sob alguns dos problemas dos sistemas de vigilância de larga escala.
2.5 - É igualmente importante lembrarmos-nos da questão do corrompimento e da deturpação das visões do poder. Mais uma vez, não precisamos imaginar um tirano cruel obtendo chaves de acesso a bancos de dados médicos ou da previdência social para enxergar o problema. O corrompimento do poder inclui líderes que apelam a um suposto bem maior (como a vitória na guerra) para justificar táticas incomuns ou extraordinárias.
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Como gosto de usar o que se passa pelas mídias no que se refere ao tema deste blog, hoje recorri a uma das séries americanas que podemos assistir em canais de TV a Cabo ou Satélite: 24 Horas.

As vêzes podemos até pensar que algumas sequências de filmes são obra da fértil imaginação dos seus roteiristas e diretores. Em Minority Report, por exemplo, os computadores de uma loja, ajudadas por leitores de iris, conseguem identificar os seus clientes, e com o banco de dados de suas compras anteriores podem "motivá-lo" a comprar novos produtos. Isso ainda pode ser ficção científica.

Mas na sequência que segue de 24 Horas é real a possibilidade do governo americano identificar quaisquer pessoas "não-gratas", em qualquer local onde haja câmeras de vigilância. Essa sequência foi retirada do décimo episódio, na oitava temporada.


Quarta-Feira que vem trarei mais uma parte traduzida do Relatório sobre Vigilância. Até lá.

domingo, 30 de maio de 2010

Relatos acerca da Sociedade da Vigilância (1ª Parte)

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Em Setembro de 2006 foi criado um Relatório para a Information Commissioner by the Surveillance Studies Network (uma rede de pesquisa sobre vigilância).

Segue parte dele logo abaixo.

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Parte A: Apresentando a Sociedade da Vigilância
1.1 - Nós vivemos na sociedade da vigilância. Não faz sentido usar um tempo futuro para falar sobre a sociedade da vigilância. Em todos os países ricos do mundo, a vida cotidiana é permeada de encontros vigiados, não apenas à luz do dia, mas 24 horas por dia, sete dias por semana. Alguns desses encontros interferem na nossa rotina, como quando recebemos uma multa por avançar o sinal vermelho sem que houvesse ninguém por perto, exceto por uma câmera. Mas a maioria desses encontros vigiados já faz parte do nosso dia a dia. Nem reparamos neles.
1.2 - Pensar nos termos da sociedade da vigilância é escolher um ângulo de visão, uma maneira de enxergar o mundo contemporâneo. É expor de maneira clara não apenas os encontros diários, como também os enormes sistemas de segurança que sustentam a existência moderna. Isso não se resume ao fato dos sistemas de circuito interno registrarem nossa imagem várias centenas de vezes por dia, ou dos caixas de supermercado pedirem nossos cartões de fidelidade, ou de precisarmos de um cartão de acesso codificado para entrar no escritório pela manhã. O que acontece é que esses sistemas representam uma infraestrutura básica e complexa, que presume que coletar e processar dados pessoais é algo vital para a vida contemporânea.
1.3 - De maneira convencional, falar na sociedade da vigilância é invocar algo sinistro, envolvendo ditadores e totalitarismo. Já vamos falar no Grande Irmão, mas a sociedade da vigilância é melhor compreendida como o resultado de práticas organizacionais modernas, dos negócios, do governo e do exército do que como uma conspiração secreta. A vigilância pode ser vista como um avanço rumo à administração eficiente, na visão de Max Weber, algo benéfico para o desenvolvimento do capitalismo ocidental e do estado-nação moderno.
1.4 - Certos tipos de vigilância sempre existiram: as pessoas se fiscalizam em prol do bem comum, por questões morais e para descobrir informações em sigilo. No entanto, há quatrocentos anos, métodos ‘racionais’ começaram a ser aplicados a práticas organizacionais, eliminando os controles e redes sociais informais dos quais dependiam os negócios e o governo. Os elos sociais comuns entre as pessoas se tornaram irrelevantes, de forma que as conexões familiares e as identidades pessoais deixaram de interferir no perfeito funcionamento dessas novas organizações. A boa notícia é que os cidadãos, e eventualmente os trabalhadores, poderiam ter a expectativa de que seus direitos fossem respeitados, já que eles eram protegidos por registros precisos e também pela lei.
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O "espírito" de vigilância como relatado acima, por pesquisadores como David Lyon e Kirstie Ball, está se disseminando pela sociedade. Uma das responsáveis por esta situação é a grande mídia televisiva. Dificilmente vemos alguma reportagem discutindo de forma crítica o aumento de câmeras ou outros dispositivos que podem ser a causa de boa parte da perda de nossas privacidades, e de um maior controle sobre nossas vidas por parte dos governos.

Na realidade, na maioria das vêzes, o que se percebe nas apresentações daqueles dispositivos de vigilância é uma leve (nem sempre tão leve) tendência a apresentar as suas "vantagens".

Como disse Pierre Bourdieu, "em um mundo dominado pelo temor de ser entediante e pela preocupação (quase pânico) de divertir a qualquer preço, a política está condenada a aparecer como um assunto ingrato, que se exclui tanto quanto possível dos horários de grande audiência, um espetáculo pouco excitante, ou mesmo deprimente...".

Trouxemos até aqui, como exemplo dessa tendência, uma reportagem do Jornal Hoje, da Rede Globo, do dia 26 de Maio passado.


Na Quarta-Feira continuamos com a apresentação do Relatório e mais exemplos de referências midiáticas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Paranóia ?

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Estou postando aqui hoje um pequeno trecho de 14 minutos do filme citado no domingo passado, Paranóia.

Ali é interessante percebermos como é tratado o assunto Vigilância, mais uma vez pelo diretor D.J.Caruso (o mesmo de Controle Absoluto).

No filme, um adolescente é incriminado por violência contra um professor, e é punido com prisão domiciliar, controlada a partir de uma perneira eletrônica.

Vejam o trecho do filme, e depois se possível assistam na totalidade. É bem legal. Principalmente por lembrar o antigo filme de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta.


Até Domingo que vem.

domingo, 16 de maio de 2010

Pulseira ou Coleira Eletrônica ?

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O parágrafo único do artigo 1° da Lei Estadual paulista nº. 12.906/08 estabelece o seguinte:

"A vigilância eletrônica consiste no uso da telemática e de meios técnicos que permitam, à distância e com respeito à dignidade da pessoa a ela sujeita, observar sua presença ou ausência em determinado local e durante o período em que, por determinação judicial, ali deva ou não possa estar".

Para quem não compreendeu a situação podemos lembrar do filme Paranóia, quando um rapaz comete um crime (atos violentos em sua escola) e a punição é utilizar uma "cinta" eletrônica presa a perna. Isso o deixa "preso" dentro de sua casa. Se sair de determinado limite espacial a perneira "dedura" o rapaz e policiais são alertados automaticamente para sua "fuga".

Quem não se lembra também do casal brasileiro (de religiosos) que ficou um bom tempo nos Estados Unidos com essas pulseiras no corpo, punidos por entrar naquele país com grana não registrada.

O presidente do STF, Gilmar Mendes, defendeu em entrevista em abril passado o uso dessas pulseiras eletrônicas. Há uma proposta do Conselho Nacional de Justiça para que seja implantada em todo o país. As notícias dos jornais naquele momento focavam a descoberta de que o ex-presidiário Adimar da Silva havia assassinado 6 adolescentes em Luiziânia enquanto ainda se encontrava em regime de prisão no regime aberto. Pouco tempo depois o pedreiro de "se suicidou" após ter sido colocado novamente atrás das grades.

Provavelmente na cabeça de Mendes uma "coleira" eletrônica no ex-detento evitaria que o mesmo (com distúrbios psicológicos ainda provados pelos peritos do próprio sitema penitenciário) cometesse novos crimes.

Dando uma passadinha pela Internet podemos notar muita gente da área jurídica criticando a lei paulista. Mas não pensem que a maioria reclama porque esse dispositivo iria negar a dignidade humana, ou criaria uma situação constrangedora para o "usuário". Ou mesmo que haja temor de que essa tecnologia possa vir a ser utilizada em outras situações, por osmose, pelo resto da sociedade.

A crítica é simplesmente porque na Constituição Federal, artigo 22, cabe somente a União legislar sobre direito penal e direito processual penal.

A Sociedade de Controle (e Vigilância) não é apenas uma fantasia teórica de filósofos.

Se isso é bom ou ruim para nós, simples mortais, é uma escolha que cada um de nós tem de fazer (ou não)...

Até Quarta-Feira que vem.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma Tarde no Shopping Center

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Hoje eu gostaria de fazer um exercício de imaginação com aqueles que passam por aqui e têm a coragem e a paciência de ler um pouco sobre um assunto que, talvez, não seja tão excitante quanto sexo, amor, crimes, e futebol.

Imagine-se dentro de uma loja do Shopping que você mais gosta de visitar. Uma livraria. Câmeras pela loja. De olho em você também. Se forem câmeras “inteligentes”, do tipo daquelas que existem no aeroporto de Londres, que conseguem “captar” a cor dos olhos, a cor da pele, feições tristes ou preocupadas, é até capaz de se fixarem em determinados grupos de pessoas (e deixarem você de lado).

Você vai a um computador daqueles em que se podem pesquisar quais livros são de seu interesse. Você começa sua pesquisa por assunto. Digita “B-O-M-B-A”.

Dentro do Shopping Salvador eu não sei, mas se tivesse em uma livraria dentro de um shopping nova-iorquino por esses dias seria bem capaz de existir uma câmera que tiraria sua foto. Ou algum cara todo de preto, todo mal encarado (óculos preto, daqueles que o pessoal do SNI/CIA, na época da Ditadura gostava de usar) pegaria em seu ombro solicitando sua identificação.

Imagina o que aconteceria até você explicar que estava querendo entender mais de “bombas” porque está com problema de falta de água em sua casa, e quer encher seu tanque em cima da laje com água de seu próprio poço.

Mas não imaginemos tanta coisa ruim. Ainda estamos em Salvador. Por enquanto, só filmagem. Quer dizer, fora o escaneamento na hora de sair da loja. Lembra daquelas “tábuas” que ficam na saída das lojas ? São tipos de “scanner” que “visualizam” se a gente vai surrupiando coisas que não compramos.

Nossa. Sempre passo por aquelas coisas com medo de apitar e vir um sujeito vestido de preto me revistar. Fico com receio do pessoal da loja não ir com a minha cara (principalmente se eu estiver com alguma de minhas camisetas furadas) e ajustar manualmente algum dispositivo para a “zorra” apitar.

Ah. Nem lembrei. Se você comprar alguma coisa, seja um sapatinho, uma calça, uma camisa “xique” de marca, uma revista... No cartão... A operadora do cartão, obviamente sem informar a você, o colocará em um banco de dados de compradores de alguma dessas bugigangas e você começará a receber em casa ou no seu e-mail (sem entender o porquê) releases e folders dos fabricantes daquele tipo de produto comprado.

É isso... Era só esse exercício de imaginação que eu gostaria que todos fizessem, e continuassem fazendo.

A idéia é essa mesmo. Perceber o quanto a gente está sendo vigiado no nosso dia-a-dia. Não que seja uma coisa de outro mundo. Que vai lhe prejudicar em curto prazo de alguma maneira.

Mas é importante perceber que muito desta vigilância se agrega a espécies de controle, e nem somos informados que ela existe. Ou seja, podem nos controlar sem que estejamos cientes de como limitar este poder.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vigilância, Privacidade, Dignidade

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Trouxemos neste post, como visto acima, a introdução do filme "Inimigo do Estado", citado por Stefano Rodotà na postagem de Domingo passado.

Ali um político e um funcionário da Agência Americana de Segurança (NSA) discutem sobre a necessidade ou não de lei para possibilitar o aumento de vigilância sobre os indivíduos que vivem nos Estados Unidos.

Infelizmente para o político os interesses técnicos prevaleceram sobre seus "caprichos" em prol da privacidade.

No tópico a seguir, retirado mais uma vez do livro de Rodotà (A Vida na Sociedade da Vigilância), há uma análise acerca do fim da privacidade como parte da eliminação da dignidade humana, devido aos mesmos dispositivos apresentados durante o filme (Câmeras, Bancos de Dados, Biometria, etc.)...

Segue abaixo o texto de Rodotà.

E até domingo que vem.

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Privacidade, Liberdade, Dignidade

Ao se preocupar com o futuro, é bom não perder de vista um presente no qual a vigilância por vídeo invade todos os espaços e a digitalização das imagens torna possível reconstruir os nossos percursos. As tecnologias da vigilância por vídeo não somente incidem sobre a liberdade de circulação, mas tornam “o passado visível”.

Os efeitos do controle sobre a localização e do fato de se custodiar todos os nossos comportamentos a uma implacável memória são bastante evidentes no âmbito das comunicações eletrônicas. Aqui, o aumento dos tempos de conservação de dados não somente está eliminando o direito ao esquecimento, mas também multiplicando as possibilidades de produção ininterrupta de perfis de todo tipo.

Qual dignidade restará a uma pessoa tornada prisioneira de um passado que está todo nas mãos de outros, frente a que resta resignar-se de ter sido expropriado?

Além disto, o surgimento da biometria propõe novas combinações de corpo físico e do corpo eletrônico. O corpo físico está se tornando uma password. O corpo eletrônico, o conjunto dos nossos dados, é objeto de um data mining cada vez mais agressivo e ramificado, motivado por exigências de segurança ou do mercado. A vigilância social é confiada a guizos eletrônicos cada vez mais sofisticados. O corpo humano é assimilado a um objeto qualquer em movimento, controlável à distância através de uma tecnologia que se utiliza de satélites ou da rádio-frequência.

Diante de nós estão mudanças que tocam na própria antropologia da pessoa. Estamos diante de progressivos desvios: da pessoa “escrutinada" pela vigilância por vídeo e pelas técnicas biométricas se pode passar a uma pessoa “modificada” por diversos instrumentos eletrônicos, pela inserção de um chip e etiquetas “inteligentes”, em um contexto que cada vez mais claramente nos transforma em networked persons, pessoas permanentemente em rede, paulatinamente configuradas de modo a emitir e receber impulsos que permitam traçar e reconstituir movimentos, hábitos, contatos, modificando assim o sentido e o conteúdo da autonomia das pessoas e, portanto, incidindo sobre sua dignidade.

(Pag. 239/240)

domingo, 11 de abril de 2010

A Sociedade da Vigilância

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Não podemos deixar que o medo, a insegurança, e os discursos policialescos em prol da eficiência da segurança, tomem conta da política pública e se permita uma vigilância generalizada em torno das ações individuais.

Não é difícil se encontrar estatísticas que comprovem o desejo de boa parte da sociedade de permitir a vigilância em detrimento da sua privacidade, ou de ações de controle social anti-democráticas por parte dos governos, em nome da luta contra o terrorismo, por exemplo.

A Revista norte-americana Popular Mechanics, em reportagem intitulada “Sociedade da Vigilância: Novas Câmeras High-Tech Estão Observando Você”, lembra pesquisa efetuada entre os norte-americanos em julho de 2007 onde 71% dos entrevistados eram a favor do aumento de vigilância eletrônica através de câmeras.

Segundo a revista já eram estimadas, naquele momento da publicação, 30 milhões de câmeras em redor dos Estados Unidos. E finaliza: “Os americanos estão sendo observados. Todos nós. Em quase todos os lugares”.

Um dos entrevistados na reportagem chega a dizer que “nós estamos entrando na Era da Vigilância a qualquer preço”, lembrando ter visto uma placa de advertência em uma pequena pizzaria: “Pare de roubar os frascos de temperos! Nós sabemos quem é você, nós temos vigilância 24 horas!”.

Críticas a este estado de coisas podem ser encontradas na Internet, ou nas pesquisas acadêmicas (que dificilmente chegam a sair dos muros das Universidades). Um ou outro canal de TV monta pequenas reportagens sobre as questões da vigilância, mas quase sempre conduzindo seus espectadores a aceitarem as câmeras, os GPSs, ou quaisquer outros dispositivos, como necessários e naturais às condições sociais atuais.

Percebendo este tipo de condução por parte da grande mídia, e do mundo acadêmico, o pensador contemporâneo, Ignacio Ramonet, diretor do jornal francês (traduzido e publicado em várias línguas) Le Monde Diplomatique, sempre tem mostrado que visões críticas do mundo não servem de nada se nos levam a um beco sem saída. Participando do 5º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em 2005, afirmou, em entrevista a João Alexandre Peschanski:
Tudo está indicando que outro tipo de comunicação é possível, que responda mais às necessidades da população do que aos interesses das grandes empresas. Neste caso, poderia pensar-se em um meio de coletar toda essa informação que é produzida e disseminá-la de modo mais efetivo. Quando cada um trabalha por si, somos muitos fracos, é preciso que todos trabalhemos em conjunto.
Na próxima quarta-feira não devo postar (farei uma pequena cirurgia), voltando apenas no Domingo que vem.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Orwell 25 anos depois

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A pedidos de alguns dos que navegaram por aqui segue o vídeo que originou a idéia do post anterior de domingo passado.

Está em inglês, mas dá para compreender (mesmo aqueles que não conhecem a língua) o que os autores desejavam quando o produziram, principalmente devido aos signos audiovisuais utilizados.



Domingo estou de volta.

domingo, 4 de abril de 2010

1984 só chegou 25 anos depois...

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O título desta postagem foi traduzido de um vídeo encontrado na Internet.

Aproveitei a idéia e fiz uma brincadeira audiovisual. Uma bricolagem de pequenos trechos de vídeos, disponíveis no YouTube.

Desculpem se me apropriei "indevidamente" do material. Mas acho que essa coisa de direitos autorais é bem discutível. Propriedade intelectual é algo discutível, principalmente dentro da Web.

Fiz a "coisa" com o Windows Movie Maker, sem qualquer precaução estética ou de cunho técnico.

Dentre os objetivos implícitos da exibição deste vídeo aqui neste blog pode estar mesmo o que a gente vem expondo aqui desde o ano passado: o exibicionismo... mas quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Affff... :-)

Brincadeiras a parte o produto que ora compartilho com aqueles que por aqui passam não deixa de ser uma crítica ao excesso de vigilância e tentativa de controle a que estamos sendo submetidos durante boa parte de nossas vidas.

Ai vai o resultado:.

 
Obs.: A música de fundo é do Eurythmics. Greetings from the Dead Man. A música fez parte da trilha sonora do filme 1984.

domingo, 28 de março de 2010

Teletelas, Big Brothers e a Tecno-Democracia

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Trecho do Vídeo-Documentário acerca do livro 1984 escrito por George Orwell em 1948.
Produzido pela TLC, associada a Discovery.

Quem desejaria em sã consciência uma pequena “teletela” orwelliana em seu bolso, na figura de um celular de terceira geração ? Por que devemos aceitar tranquilamente que câmeras estejam a cada esquina direcionadas as nossas ações mais particulares ?

Alguns chamam a esta sensação de que todas estas questões nem precisam ser respondidas de naturalização de processos que na realidade são históricos, e têm uma origem, um objetivo. 

É preciso analisar onde está nos levando todo este processo de naturalização das tecnologias de controle e vigilância. Nortear-se através de uma ética humanista neste momento é mais do que necessário.

Na ditadura imposta pelo Ingsoc do livro de 1984 as pessoas não tinham muitas opções, nem qualquer direito a negar o que o Partido do Grande Irmão (Big Brother) desejava. Mas hoje ainda temos um pouco de possibilidades de resistir. E para isso é importante que entendamos um pouco o que é realmente o mundo em que vivemos.
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Primeiro de tudo percebermos que este é um mundo que tem história, onde alguns mandam, outros obedecem, e alguns ainda resistem. Mas isto não começou devido a uma ordem transcendental vinda do Cosmos. Como dizia o filósofo francês Michel Foucault:

a verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros...
Se o atual regime de verdade nos direciona a acreditar na inexorabilidade do poder tecnológico, então tentemos compreender este regime e façamos com que mude. É possível mesmo usar toda parafernalha de convergência existente para mudar a atual “política geral” de verdade, particularmente através de trabalhos colaborativos, de pesquisa, propaganda e ação, e desenvolver uma via democrática para a inteligência coletiva, termo criado por outro filósofo, Pierre Levy.

Entender que as técnicas não determinam nada sozinhas, como percebe o próprio Pierre Levy, já é um bom começo. É necessário que todos possam compreender que as técnicas resultam de contextualizações e subjetivações históricas definidas e nada é inexorável na história.

 Levy também sustenta que nunca poderemos ter respostas absolutas às questões do conhecimento coletivo. Mas, ao contrário, sempre podemos desejar um mundo melhor para todos e procurar outras razões que não as do lucro, e outras belezas que não a do espetáculo, em busca do que ele chama de Tecno-Democracia.

Mas isto não acontecerá, afirma Levy, “a menos que renunciemos previamente à idéia de uma tecnociência autônoma, regida por princípios diferentes daqueles que prevalecem em outras esferas da vida social”.

Quarta-Feira volto a postar.